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Tag Archives: GENDER ISSUES

The Misunderstood Award seeks to accolade those thinkers whose ideas have been so warped as to become as good as opposite to the original intent. Paraphrasing Kipling, they are witnesses to the truth they spoke being twisted by knacks to make a trap for fools. A little tragicomedy where the more someone feels identity with a given thinker, the more likely he’ll be labouring at destroying his thought. So, without much further ado, this year’s prize goes to:

Pierre Bourdieu

Bourdieu, together with some other french sociologists in the last part of the XX century, tried to show that societies create ideas according to their own purposes. This means that the ideas are part of the process whereby the society reproduces itself, both as tools for it and as consequences of it. So for example the set of values a given group espouses helps this group to sort through and incentivize the kinds of member-behaviour that will further the groups’ objectives. In other words, ideas are not independent from the power structures that harbour them, as they incorporate the biases and privileges and asymmetries of society.

This of course takes knowledge and discourse as valuable, and focuses a lot of attention in them, mainly as a fruitful object for study. Misunderstanding arrives when this valuation of discourse is taken as proof that what someone says is so important that you should actually fight over it. Read More »

Nos bons e velhos tempos quando ainda existia feminismo, eu era um calouro sem-noção e arranjei uma namorada muito f0d4 que me ensinou várias coisas importantes. Uma vez essa menina falou pra eu ir em alguma coisa de feminismo, tipo uma manifestação ou encontro, e eu respondi “Mas eu não sou mulher!”. Ela fez uma cara de vergonha alheia, respirou fundo e disse “Você não sabe do que você tá falando…”  e me deu uns fanzine pra ler, depois umas xerox, depois Haraway, e assim foi. Vários anos depois estava lendo Bourdieu e Butler. E foi uma jornada, o assunto deu vários nós na minha cabeça que eu fui tendo que desenlaçar aos poucos.

Mas a tal ex-namorada me explicou desde o comecinho uma coisa muito importante: Feminismo não é o contrário de machismo. Ser feminista não quer dizer querer que as mulheres ocupem a posição de privilégio que antes os homens ocupavam, e definitivamente não quer dizer tornar as mulheres as opressoras. Portanto, não é contraditório um homem ser feminista.

Portanto: Esse papo de que feminismo é contra homens é uma estratégia clara do patriarcado para desacreditar o feminismo. Read More »

No último ano uma conversa se repetiu muitas vezes, mais ou menos assim:

Amiga: Daí eu me senti muito usada.
Eu: Bom, homens também se sentem usados às vezes.
Amiga: Quê?
Eu: Bom, se uma mulher for eskrota com um cara, o cara vai sofrer, como qualquer pessoa normal.
Amiga: Não entendo.

E aí a coisa degringola porque a mina não consegue compreender que um homem possa se sentir usado. Essa idéia simplesmente não entra na cabeça delas. Se eu insisto no assunto começa a parecer que não estamos falando a mesma língua.

Então vou tentar explicar por escrito…

A excisão é a retirada do clitóris da mulher, normalmente enquanto ainda criança. Existem algumas culturas em que isso é tido como uma prática normal. A ideia, do ponto de vista da nossa cultura, parece bem selvagem, e pessoalmente ainda não consegui achar alguém tacanho o suficiente para não se horrorizar com a coisa.

A dor provocada não é muito grande, e provavelmente acontece antes mesmo da menina poder se lembrar. Quanto à pura violência física, a excisão não é muito significativa, um espancamento por exemplo é um trauma muito maior. No entanto, me parece que a excisão é o arquétipo da violência contra o feminino.

Não se trata de uma recusa ou uma opressão, de uma retirada de prazeres, é algo muito mais profundo. A excisão elimina a própria possibilidade de uma experiência. É a aniquilação da própria potencialidade de prazer do corpo feminino. É um ataque num nível que parece ser mais real que a própria realidade do corpo: Negação do próprio SER feminino.

Enquanto a excisão é vista como uma barbárie, a circuncisão masculina é vista como normal.

Anatomicamente, a pelinha do pênis (nome científico prepúcio) é a região mais densamente enervada do corpo masculino. Existem ali tipos de terminação nervosa que não existem em nenhuma outra parte do corpo. Em comparação, o restante do pênis tem a sensibilidade equivalente da pele, e a cabeça do pinto (ao contrário do que dizem as lendas) é praticamente insensível. A única coisa que se aproxima na anatomia humana é o clitóris feminino. E mesmo assim a circuncisão é tão comum que passa por fato científico que ela não altera a vida sexual do homem. Nos EUA metade da população masculina é circuncidada.

Estranhamente, embora o homem seja opressor e a mulher oprimida, a integridade corporal masculina é violada rotineiramente.

Por isso me irrita ouvir que só as mulheres sofrem com o preconceito de gênero. E quando aparece alguém pra dizer que o masculino também é vítima normalmente é na base do “homem não pode chorar”. Coitados deles, têm que prender as lágrimas! Oh!

Ninguém traz à tona o fato de que, por exemplo, a vasta maioria dos assassinatos é assassinato de homens, pela simples razão de que a vasta maioria das pessoas confinadas a vidas violentas são homens. Ou seja, na vasta maioria, os bandidos são homens. Mas aparentemente isso não pode ser uma questão de gênero.

Claro, esse é um problema muito difícil porque a sexualidade está muito próxima de nós, ela é uma parte grande demais de quem nós somos. Por isso é muito incômodo, muito trabalhoso questionar o gênero. É difícil aceitar que as coisas que nos parecem normais não são.

A diferença entre a violência física e a violência mais-que-física da excisão é exatamente essa diferença entre o que é normal e o que foge desse preconceito de normalidade. A proibição do prazer parece algo contra o qual temos que lutar, mas no fim é sempre uma proibição pouco eficaz. Mas tornar o prazer uma coisa anormal destrói esse prazer num nível maior.

O que a heteronormatividade faz não é colocar o homem sobre a mulher, mas antes tornar anormais outras formas de viver. O que o preconceito de gênero me tira, a mim homem, é o mesmo que tira às mulheres: A liberdade de SER.

[transf do tumb]