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Tenho uma relação de amor e ódio com o tal decolonial, por razões de: talvez seja um luxo. Ou seja, muito me interessa esse questionamento todo, mas estamos vivendo um golpe de estado e esse questionamento todo não parece fazer nenhuma diferença. Esse é um discurso que idolatra a união, mas nós que o defendemos estamos mais desunidos do que nunca. Então, mezzo amo, mezzo odeio.

O decolonialismo é uma espécie de super-trunfo do ativismo. É revoltado e conciliador, é mais desconstruído que o pós-modernismo, é mais raiz que maracatu-nação, é mais igualitário que clube da luta, mais anarquista que os blequibloqui, mais realpolitik que o centrão, mais sex-positive que os BDSM, mais estratégico que os generais. E no entanto, onde é que nós estamos chegando?

Me sobra a sensação de que o discurso não tem relação com a vida. Ou ainda, que o discurso vai na contra-mão da vida.

E que ficamos de mãos atadas sem poder fazer nada.

Então, por exemplo, esse discurso começou a surgir mais ou menos junto com esse papo de “homem não pode ser feminista”. E eu tô coberto de saber que no máximo 2% das feministas realmente pensam isso. Mas no entanto os homens cada vez menos tiveram espaço nas discussões feministas.

Eu já reclamei um montão disso nesse blog, mas nem é essa a questão, esse caso específico não faz diferença, mas ele parece típico de uma tendência maior que…

Então a organização parece sempre girar em torno de um valor moral, de algum ideal profundo e complexo, mas a verdadeira articulação de pessoas não parece estar no centro das preocupações de ninguém.

E isso talvez possa ser só uma coincidência, talvez os dois fenômenos (da complexificação do discurso e da decaída dos mecanismos de articulação) não tenham nada a ver um com o outro. Mas, depois que eu pensei na possibilidae, a pulga não saiu de trás da minha orelha.

Talvez o decolonial seja tão complexo que no fundo acaba sendo impossível de partilhar. Por exemplo, desconstruir-se a si mesmo é difícil. (Talvez seja por definição a coisa mais difícil de todas.) Basear um movimento social na desconstrução na verdade tem tudo pra ser extremamente difícil. Sem dúvida tem um potencial enorme, profundo, transcedental, mas tem tudo isso pelas mesmas razões que tem de ser extremamente difícil de explicar. Tá tudo certo com o decolonialismo, mas talvez isso queira dizer que ele não tem nenhuma chance — é um movimento perfeito para uma pessoa, mas inútil para um grupo.

Ainda mais se estamos buscando um movimento que possa se organizar rápido para reagir a uma situação emergencial. Como por exemplo agora.

Estamos vivendo uma situação inexplicável, com toda a cara de ser influência externa, em que praticamente ninguém se beneficia, que certamente não pode ser explicada por mérito dos atuais cagalhões de plantão, em que se está perdendo rapidamente tudo o que o país havia conquistado nos últimos 20 anos, num contexto geopolítico mundial em que seria preciso se preparar para pioras ao invés de cavar um buraco, mas… apesar disso tudo… estamos discutindo as origens transcedentais do colonialismo.

Sendo que eu sou mim, era inconcebível que eu não quisesse jogar a culpa toda nas moralidades. Me parece que as discussões todas, da causa trans, do pós-feminismo, do lugar de fala, do veganismo, do guarany-cayowa, das ecologias, das terras planas, das fake-news, dos algoritmos, das mídias sociais, me parece que tudo isso gira em torno de moralidades. Cada uma dessas coisas está tentando dizer o que é “certo”, ou melhor está tentando construir um sistema de valores. E que esse tipo de coisa só pode ter como consequência um monte de pecadores, ou seja um monte de gente secretamente achando que é culpado de alguma coisa mas tentando justamente por isso mesmo berrar cada vez mais alto contra todos os outros pecadores. É um ciclo auto-alimentado. Isso me parece me fazer muito sentido.

E provavelmente por isso mesmo seria melhor achar que eu estou errado, por via das dúvidas.

Porque as explicações claras são ruins na hora de juntar gente. Porque cada pessoa é uma bagunça diferente. Então ter um movimento mais bagunçado seria a princípio melhor.

Por isso acho que o carnaval é a via de escape. Não solução de problemas, veja bem, que carnaval tem seus direito, quem quer que ele resolva problema não se meta. Mas via de escape.

Só que o grande problema é que bolsonarista também pula carnaval. Você provavelmente vai pegar um bolsominion no carnaval. E você, meu caro bolsominion, provavelmente vai baixar as calças pra um petralhinha. E todo mundo vai fingir que não lembra no dia seguinte.

Daí me parece que, antes, lá pelos anos 80 (que é quando eu começo a ter memórias), todo mundo tinha um tio que achava que “bom mesmo era no tempo da ditadura”. Mas era um tio seu, normal, nó cego e reaça mas família ainda assim. Era parte da vida. E negociar as diferenças era possível. E daí me sobra essa sensação de que a gente foi criando essas teorias cada vez mais elaboradas sobre como aceitar as diferenças mais extremas, e acabou se tornando incapaz de negociar diferenças.

E daí o que nos une é sempre algo pequeno e profundamente significativo, tipo a tarifa do busão. Daí 2013 e fica todo mundo sem ter a menor noção do que aconteceu.

Por isso que eu acho que os coletes-amarelos da França são o maior mistério da atualidade, e ninguém parece falar muito sobre isso. Tratam como se fosse mais um protesto, mais um movimento. Mas pra mim é um movimento que se organiza sobre linhas completamente diferentes das linhas tradicionais. Não é bem esquerdista. Definitivamente não é anti-capitalista. Faz questão absoluta de não ser eco-socialista ou eco-fascista ou eco-qualquer-coisa. Os coletes-amarelos não são nada além de um monte de gente que percebeu que a água bateu na bunda. Que fedeu. E daí perceberam que tavam nessa juntos. E daí fizeram qualquer coisa que desse pra fazer com isso. Mas no fundo é um movimento pobre, no sentido de que é um movimento sem grandes ideologias ou moralidades claras, sem estratégias ou reivindicações ou planos políticos. E isso não é um movimento que aponta belas esperanças de futuro, é só uma tentativa de segurar as pontas mesmo. Nada além disso. Mas talvez esse seja o maior mérito deles.

E daí eu super poderia criar um mega argumento de porque os coletes-amarelos são decoloniais. Não seria difícil. Mas fico com uma suspeita de que não é nada disso.

Porque eu, no fundo do meu coração, sou desconstruidão, e adoro de paixão essas desconstruídas mirabolantes do decolonial, dessa guerra sutil de nomeamentos e releituras, desse poder de auto-crítica como trapaça, dessa transcendência profunda e solidária. Cara, me emociona.

Só que, ao mesmo tempo, não sei se tá dando pra fazer isso aí.

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