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Há mais ou menos um ano, assumi pra mim mesmo que eu sou meio autista. Isso considerando que autismo agora é um espectro, então existem vários níveis de autismo e o meu, especificamente, sendo um dos níveis mais tranquilos. Mas um dos sintomas clássicos do autismo me encaixa demais: Tendência a catastrofizar as relações.

E hoje vou não só assumir que eu faço isso mesmo, vou dizer que não tem problema nenhum disso, vou dar uma explicação, e ainda vou dizer que esse seria um ideal bem melhor do que o amor água-com-açúcar das comédias românticas que se passa de ideal hoje em dia.

Catastrofizar é tratar um (possível) fim da relação como uma catástrofe. Achar que você vai morrer se isso acontecer. Parece uma coisa muito romântica isso, não? Só que autistas não são românticos. Autistas não têm a parte do cérebro que faz romantismo, eles são mais ou menos incapazes de ter o tipo de amor que dá vexame, que quebra barraco, que grita, que ama desesperadamente, que acha que aquele beijo é o momento mais feliz da sua vida inteira.

Autistas amam, sim. Mas o que eles chamam de amor não é visto como uma “emoção” pelo resto da sociedade. Por exemplo, explicitar emoções é visto pelos normais como uma afronta à emoção, mas o autista acha que uma emoção que não foi explicitada não se realizou ainda. (Por isso o autista acha a coisa mais normal do mundo dizer “eu te amo” sem absolutamente nenhuma expectativa de ouvir alguma resposta específica.)

Mais importante: Um autista não é fiel porque ele está sempre sentindo alguma coisa por você. Ele acha uma palhaçada essa ideia de sentir sempre a mesma coisa, essa não é a definição de “sensação”! (Sim, só um autista pode realmente se perguntar qual é a definição de uma sensação. Para nós, isso é levar a sensação à sério.) Sensações são coisas momentâneas, então como você pode querer que eu tenha sempre a mesma sensação? Isso não seria saudável!

O autista é fiel porque ele tomou essa decisão. É como se o autista tratasse o amor como um contrato. Mas tem uma diferença: contrato é um conjunto de regras que você tende a burlar ou trapacear. Pro autista, o amor não é um conjunto de regras. Afinal, o autista não é uma mente sem coração. Pro autista o amor é mais como se fosse um princípio. Um axioma.

Cada autista (assim como cada ser humano) ama do seu próprio jeito, é claro, mas deixa eu colocar o amor nas minhas próprias palavras pra dar um exemplo. Amar pra mim é viver como se a pessoa fosse tão importante pra mim quanto eu mesmo. Isso não significa que eu vou sonhar com ela todas as noites. Não significa que eu quero estar com ela o tempo inteiro, por exemplo, ou que sinta muito a falta dela, ou que eu vou ficar galanteando ela. Não é uma sensação, é um fato.

Basicamente, isso significa que os normais simplesmente não são capazes de entender o que é o amor para o autista. Eles não podem imaginar a profundidade da lealdade de um autista. Se eu tivesse que escolher entre a minha vida e a da pessoa que eu amo, escolheria a dela. Mas não porque eu ia ter vontade de salvar ela, só porque essa seria a decisão que faria sentido. Isso seria o normal, pra mim.

E é por isso a catastrofização. Porque como todas as minhas decisões são tomadas pensando em mim e no outro, acabar com o relacionamento é basicamente acabar com todas as decisões que eu tomei desde que o relacionamento começou. Pode ser equivalente a jogar fora meses e anos da sua vida, como ter que começar do zero de uma forma literal.

O amor dos normais é apenas uma paixonite, do nosso ponto de vista.

Só que o nosso amor pode muito bem não ter paixonite alguma. Sem sentimento, sem um enorme prazer em estar junto da pessoa. Quer dizer, tem isso também, mas isso não é amor. Nem uma versão mais fraca de amor. Isso é paixonite, outra coisa, outra definição. Nada a ver.

Obviamente, o amor paixonite é o que é considerado “normal” pela sociedade hoje em dia. O tipo de amor de filminho comédia romântica. Que é muito mais divertido do que amor autista, mas também é muito mais passageiro. Certamente relacionamentos que se baseiam em paixonites tendem a ser muito mais complicados e dramáticos que um relacionamento baseado em princípios claros. E, é claro, todos esses relacionamentos desse tipo sobrevivem bem pouco, sobrevivem só até a primeira ressaca basicamente. O que sem dúvida deve ter alguma coisa a ver com a desolação caótica que são os relacionamentos contemporâneos.

O amor autista certamente não é o jeito “certo” de amar, não existe um jeito certo de amar, existem tantos jeitos de amar quanto pessoas. Mas o amor de paixonite certamente é um jeito bem errado de amar. Entre outras coisas, porque é um estereótipo de filme, não é nem uma emoção sentida por pessoas de carne e osso. E se essas pessoas de carne e osso confundem o que elas estão sentindo com esse amor estereótipo, os problemas se acumulam rapidamente. Não estou dizendo que o amor autista seja o melhor amor de todos, mas certamente é melhor que isso.

Já é chato ter o amor que eu sinto visto como não sendo uma emoção. Ter o meu amor comparado com isso é terrível.

Eu tenho orgulho da minha forma de amar. Eu tenho orgulho dela porque ela é mais realista. Eu não faço exigências sobre como o seu coração deve funcionar. Que você sinta o que quiser sentir. Aliás, tomara que você sinta um monte de coisas, que você cresça, inclusive que você me odeie às vezes. Tudo isso é parte de você, te faz maior, te faz mais madura, e se eu me importo com o seu bem eu não tenho como não querer isso tudo. O seu coração funciona de um jeito, eu quero que isso seja parte da minha vida, o meu coração funciona de outro jeito, há dificuldades aí, mas vamos lidar com o problema. Lidando com as coisas como elas são, não fingindo que elas correspondem a algum estereótipo água-com-açúcar.

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