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A política hoje está sendo reescrita.

Um lado desse processo é uma reavaliação das forças, por assim dizer, libidinosas. Ou seja, em parte a sociedade quer rever e reestruturar a sua relação com o sexo. Muitas vezes as pessoas tentam colocar isso como uma mudança pequena, como se não fizesse tanta diferença assim, como se no fundo sempre foi “um segredo que todo mundo sabia”, e que a única diferença é que agora dizemos coisas que antes ficavam subentendidas. Mas isso é traiçoeiro: Sempre existiram homossexuais, é claro, mas dizer que a homossexualidade de alguém deve ser critério de organização do seu projeto de vida é tão radical quanto dizer que alguém tem o direito de pedir divórcio o parceiro não mandou bem na última trepada. Eu, individualmente, intimamente, sou ligado à ideologia feminista e a defendo. Mas também reconheço a lógica do meme da [Ditadura Gayzista] e acho que é importante assumir que quando a ideologia de gênero se coloca como uma “não ideologia” está fazendo o mesmo que o machismo fazia antes, ou seja, naturalizando-se.

Longa história. E, entretanto, o arquétipo contrário da libidinosidade parece se apagar. Como tudo que é renegado, ele volta em seu pior aspecto. Talvez, portanto, seja preciso reavaliar também as forças da agressividade.

Muitas e muitas vezes tentaram fazer Educação Sexual se baseando na Abstinência. Ou seja, ensinar sobre sexo focando principalmente em ensinar que não se deve fazer sexo. Essas inúmeras tentativas sempre falharam, consistentemente. Inclusive, crianças que recebem esse tipo de educação sexual tendem a praticar mais sexo do que as outras. Ou seja, mesmo que o seu objetivo final fosse que o seu filho não fizesse sexo nenhum, ainda assim seria melhor evitar o [Modelo Abstinência] de educação sexual. As razões disso seriam uma outra longa história, mas basicamente parece que o sexo não seja uma coisa que se possa simplesmente negar ou ignorar.

Mas, da mesma forma, é possível que a agressividade não seja algo que se possa simplesmente negar ou ignorar.

Hoje em dia, essa última frase fica até parecendo apologia da violência, como se eu estivesse me posicionando a favor das inúmeras barbaridades que estão acontecendo. Porque tratamos a violência com tanto tabu quanto os evangélicos tratam o sexo. Então simplesmente falar de agressividade já é visto como um problema.

Quando não me permito agressividade de maneira alguma, acabo transformando essa agressividade em outras formas de comportamento que parecem menos violentas, mas causam tanta dor quanto, talvez mais até.

A transformação mais óbvia é substituir a violência por regras, regulamentos, estatutos. Estes preceitos dizem claramente quais ações são violentas e devem ser evitadas, mas ao mesmo tempo rejeitam todas as outras ações e assim diminuem a liberdade de ação. Ou seja, você passa a sua agressividade por filtros e controles. E você supõe que essa agressividade filtrada vai obter os mesmos resultados que a violência. E talvez obtenha mesmo, mas sorrateiramente o filtro é uma violência contra a sua própria forma de ação. Você evita a agressão sendo agressivo contra a sua própria agressividade. É como se você aumentasse a pressão para evitar explodir, quando o mais importante é deixar essa pressão se dissipar. Psicologicamente, o preço da repressão da violência é piorar sua relação consigo mesmo.

O “Politicamente Correto” é exatamente a mesma transformação, num contexto coletivo. Todas as formas de conflito são escondidas através de um linguajar insosso, mas isso não desarma os conflitos. As diferenças continuam existindo, mas é proibido falar sobre elas. E justamente porque é impossível falar, é impossível negociar esses conflitos.

Uma consequência óbvia desse processo é que em algum momento a crueldade passa a ser admirada, porque passa a ser a única forma de tratar dos conflitos. Como toda menção da diferença é tratada como uma monstruosidade, vestir a carapuça de monstro funciona. A negação da agressividade dá espaço para uma outra agressividade muito pior.

Infelizmente, não basta apenas aceitar nossa agressividade para resolver o problema. Trata-se de uma dinâmica da sociedade como um todo. E estamos em tempos violentos, cada vez mais. Temos que viver com isso — usar isso para melhorar a nossa vida.

Viver em tempos violentos significa reavaliar as forças agressivas. Não só aceitar a nossa própria violência, mas aprender a usá-la. Saber usá-la, justamente para ser capaz de evitar usá-la com crueldade.

E, inclusive, saber evitar a crueldade que for direcionada contra nós. Ficar de olho em quem quer nos esfaquear pelas costas. Quando uma pessoa usa a violência, ela faz um cálculo (mesmo que inconsciente) de quais são os seus riscos e o que ela pode ganhar. Se ele sabe que a gente não vai se defender, o risco é muito pequeno, e nos atacar passa a ser uma escolha muito boa. Estar disposto a reagir, se você sabe o que está fazendo, muitas vezes tem como efeito diminuir a violência. Isto não é ser conivente com a barbárie, muito pelo contrário, é evitar o moralismo de tentar dizer ao mundo como ele deveria ser.

Uma das formas de pensar “agressividade” é como a disposição ou a capacidade de colocar a sua marca no mundo. A agressividade não funciona sem a contraparte, de entender que o mundo vai colocar a marca dele em você também, ou seja não funciona sem diálogo. Mas se abster de colocar a sua marca no mundo é, também, falta de responsabilidade.

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