Skip navigation

Conceitualmente, Enéas era de direita, mas é fácil imaginar que se Enéas tivesse ganho a eleição, FHC ia querer morrer.

Da mesma forma, a vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno será a maior derrota da direita brasileira. Derrota da direita, e não da esquerda. Parece maluco dizer isso, mas não é a única coisa de ponta cabeça no cenário atual.

Ainda que o futuro presidente Bolsonaro se declare campeão da direita, até recentemente ele tinha um papel minúsculo dentro do grupo oligárquico que compõe a direita brasileira. Talvez nem isso: Ele era mais um deputado fantasma, uma peça de decoração, um zero à esquerda. Se ele viesse a tomar a liderança daquele grupo oligárquico (e mesmo eleito isso não é garantido) isso seria um gol contra para essa elite. Tanto que as propagandas de Alckmin eram antes de tudo oposição a Bolsonaro. O único grupo com o qual ele apresenta alguma semelhança é a Bancada Evangélica, que tradicionalmente segue as ordens da direita, mas mesmo assim considerado sua vitória é uma gigantesca virada de mesa, pois quem mandava agora vai obedecer.

Vladimir Safatle quase diagnostica isso quando diz que “essa eleição, de 2018, entre outras coisas, vai ser a eleição em que o PSDB vai desaparecer.” Mas ele tira daí a conclusão errada: Frente à radicalização da direita ele sugere que a esquerda deve se radicalizar.

É um erro. A grande vitória da esquerda é que a sua visão de mundo ainda é crível, tanto que Lula mesmo preso é vastamente favorito. A direita precisa se reinventar ou desaparecer.

Acontece que tanto direita quanto esquerda, bem como todas as outras possíveis “direções” políticas, estão passando por um choque gigantesco. O mundo está se desfazendo desde 2008 e o resto é consequência. Não foi a Nova Direita que inventou de usar Fake News no WhatsApp nem foi a Ditadura Gayzista que resolveu dominar o mundo. Há uma crise muito mais profunda que, do ponto de vista de direitistas e esquerdistas, acaba aparecendo na forma desses memes. Essa crise sugere novas estratégias, não são as estratégias que geram a crise — e em parte o discurso contemporâneo não faz sentido nenhum porque confunde essas causas e consequências aí. No caso brasileiro, isso é particularmente confuso porque nosso país embica nessa crise num momento particularmente bom, e as crises quase sempre tinham nos pego no contrapé.

De novo, é o Safatle que quase acerta esse diagnóstico, quando ele diz (e me parece que só ele diz isso) que 2013 acontece porque nesse momento a sociedade brasileira passa por um excesso de expectativa. Ou seja, nesse momento a gente estava tão bem que se permitiu sonhar alto demais.

Ora, esse sonho alto demais é mérito da esquerda. Ele gerou uma instabilidade enorme, e o esquadrão do rabo preso usou essa instabilidade se livrar das investigações anti-corrupção da forma mais desastrada possível, criando o governo Temer e suas taxas de desaprovação inacreditáveis, e tudo isso acabou colocando a esquerda em uma situação muito delicada. Mas nada disso quer dizer que a direita tenha vencido a esquerda, nem mesmo que a direita possa reivindicar qualquer tipo de vitória. Todos perdem, embora a direita perca muito mais.

É claro que seria muita burrice se a esquerda viesse a comemorar a derrota de sua adversária, até porque nunca se tratou de um dualismo. Direita × Esquerda nunca foi a história inteira. Sempre houve algo mais, e continua havendo.

Tratou-se sempre, e ainda se trata, da auto-poiese do Brasil. De nós inventarmos quem queremos ser.

Antes era a invenção de nós mesmos à sombra dos EUA. Agora é a invenção de nós mesmos num mundo que vai se aquecer 3º ou mais. Num mundo em que China pisa nos calos de uns EUA cada vez mais instável. Num mundo em que o Estado Islâmico é uma coisa.

Ou seja, o buraco é mais embaixo.

Inclusive, achar que Bolsonaro é assim um problema tão grande, possivelmente é outro erro. Ou seja, Presidente Bolsonaro vai ser uma cagada federal, mas acho que a gente tem mais o que fazer do que ficar consertando essa cagada.

Isso em parte quer dizer que ficar tentando convencer coxinha de que Bolsonaro no fundo é Hitler é uma perda de tempo sem tamanho. Pra começo de conversa, porque Hitler era muito mais competente. Ou, de todos os possíveis vilões, Bolsonaro é um bem pouco amedrontador.

Eu sei, eu sei. Tá na moda falar da banalidade do mal. Falar que o Bolsonaro é “gateway drug” que vai nos levar a queimar gays e lésbicas. E eu adoraria fazer um enorme post falando porque isso é uma bobagem, descascar a Hannah Harendt e tudo. Mas isso não importa, o que importa é o seguinte: Toda vez que você fala isso tudo, você perde a chance de dialogar com um Bolsominion. Porque isso tudo são argumentos, e todos esses argumentos ignoram os sentimentos do Bolsominion. Ele já ouviu o seu blá-blá-blá. E ele provavelmente concorda com você. Mas no fundo do coração dele, ele sente que tem alguma coisa errada. E ele sente isso porque tem mesmo alguma coisa muito extremamente gigantescamente errada, como eu já disse. E em situações de crise como essa é a coisa mais natural do mundo se voltar pra moralidade, pros nossos sentimentos de o que é certo e errado. E no sentimento dele, ser pós-moderno demais soa como desrespeito. É normal. Aliás, o pós-moderno se vangloria de ser desrespeitoso. O Bolsominion prefere não entrar num grande discurso que ele não entende muito bem, por via das dúvidas. Se você tenta argumentar com ele, ele só vê mais discurso incompreensível, e você só aumenta o sentimento Bolsonarista dele. Só vai existir diálogo se você tiver coragem de sair do seu pedestal dos discursos perfeitos e tentar partilhar os sentimentos. Porque todo mundo quer menos ódio e menos violência.

No fundo, Bolsonaro é um velho bem ranzinza e muito burro, mas simpático. Ele me lembra o meu pai. Ele não argumenta, ele só faz questão de falar a última palavra. Tática clássica de bullying, e eu demorei muito a entender que o meu pai só fazia isso quando ele tava se sentindo acuado. Eu não estou dizendo que o Bolsonaro está certo em dizer nada do que diz, só estou dizendo que a estratégia de tratá-lo como anticristo aumenta o poder dele. O que dá certo é tratá-lo como um valentão. E não entrar no jogo dele.

Não que eu esteja guardando um happy ending pro final, escrevo esse post partindo do pressuposto de que a vitória no segundo turno é quase certa. Uma merda no ventilador federal. Literalmente federal.

Mas, sendo assim, bate-se continência e segue o baile. O Brasil sobreviveu a Sarney, vai sobreviver a Bolsonaro. Daqui a quatro anos (ou oito) a gente vê o que faz.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: