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Outro dia no Tinder, alguém tava reclamando do baixo nível das cantadas ali, e é claro que o nível é baixíssimo, mas fiquei pensando… Não me parece uma coisa assim tão ruim que o Tinder seja baixaria. Ou melhor, me parece que a baixaria do Tinder seja resultado de pessoas ruins, mas de uma situação geopolítica em que a baixaria é a forma de comunicação menos pior disponível para pessoas normais.

Falar “situação geopolítica” é meio que um sarcasmo. A ideia é só que a baixaria do Tinder não está só na mão das pessoas, que não tem ninguém escolhendo ser baixaria. O contexto do Tinder é propício à baixaria, inclusive o contexto que faz com que o Tinder seja a única coisa disponível para jogar papo fora e dar uma paquerada no mundo atual.

Ou seja, é bom pensar que as pessoas são legais, mesmo se elas acabam fazendo umas baixarias no Tinder.

Mas não tô falando isso só pra ser bonzinho, só do tipo vamos aceitar os outros e ter amor no coração, não acredito nessa conversa mole. Acredito que a sociedade que a gente vive é uma sociedade com alto nível de fricção. As relações humanas nessa sociedade sofrem muito atrito. A gente acaba se ralando uns aos outros. Não porque a gente seja mau, mas porque a situação não deixa muita alternativa.

Agora, exatamente que situação é essa? Me parece que é uma desestruturação das relações, que é também uma desestruturação dos xavecos, que é também uma desestruturação do casamento, que é também uma desestruturação do contrato social.

É difícil ver um sistema assim complexo, então vamos desembaraçando a coisa. Começamos por aqui: O modelo [Uma Vida Bem Sucedida] está meio que desaparecendo. Ou seja, existem pessoas que vivem e se dão bem, mas isso não aparece pra ninguém como uma receita, como um processo estável o suficiente para se falar dele e tentar imitar. Esse modelo não é mais uma coisa só, ele desapareceu. Junto com ele, desapareceram também modelos de outras coisas, por exemplo de [casamento] ou seja do que significa passar a vida com alguém.

Mas as relações eram mais ou menos organizadas de acordo com esse modelo. Por exemplo, dizer pra alguém “eu te amo” também queria dizer “eu me casaria com você”. Poderia até querer dizer “eu talvez quem sabe poderia até com dificuldade e relutância considerar a possibilidade remota de me casar com você”, mas de uma forma ou de outra a palavra “amor” adquiria significado quando eu a comparava com a ideia de passar a vida ao lado de alguém.

Quando o modelo desaparece, quando já não faz mais sentido pensar em passar a vida com alguém, quando para pensar nisso é preciso fazer cálculos e não simplesmente aceitar a ideia pronta do “casamento”, então fica difícil dizer pra alguém que eu a amo.

E a mesma coisa vale pra dizer “Oi, Gata, você vem sempre aqui?” Ou seja, essa instabilidade que torna difícil pensar “o que é o amor” também torna difícil dar um bom xaveco.

Daí a baixaria. Não porque as pessoas sejam más, nem porque a falta da estrutura revela a maldade que existe dentro das pessoas, mas simplesmente porque a baixaria é mais compreensível.

Quer dizer, mesmo com toda a instabilidade pós-contemporânea, uma foto sem camisa e um “oi gata bora beijar na boca” ainda é compreensível. O significado disso também se desestruturou, mas como tinha menos significado pra começo de conversa, a desestruturação é menos impactante.

Então, em um nível, isso é um problema de comunicação. Não só comunicação entre duas pessoas. Não é que uma delas não fale a língua da outra. É que a língua que elas falavam pifou. A própria língua não está funcionando direito. Por isso a chance de se desentender é muito maior. Mas tem um outro nível.

Se trata também de um problema de violência. Porque como as receitas estão fora do prazo de validade, ninguém sabe muito bem o que vai acontecer quando os desentendimentos aparecerem. Não só estamos nos entendendo menos, temos menos mecanismos para resolver esses desentendimentos. E quando nos desentendemos e não temos como resolver o desentendimento, corremos o risco de partir pra violência.

Por isso, ao mesmo tempo todo mundo está se sentindo mais solitário, e tem menos chance de diminuir a solidão do outro.

Não que eu esteja defendendo o Tinder, acho aquilo muito estranho (mas tô lá, não posso mentir). Mas eu definitivamente sou mais feliz quando consigo me lembrar que a baixaria não é sinal de que todo mundo que tá no Tinder é um merda. Somos só um monte de pessoas perdidas na multidão. Ou, nas palavras de Napoleão:

Não atribua à malícia o que pode ser explicado pela ignorância.

Mais ou menos isso.

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