Skip navigation

Aconteceu, então, o grande Cacique faleceu.

Nesse dia o velho Pajé deu suspiro cansado do fundo da sua tenda, apanhou seu cajado e, no seu passo manco e lento, foi até o corpo inerte, disse um breve encanto, fechou os olhos mortos, e então tirou o cocar daquela cabeça flácida e levou-o à sua própria cabeça, altiva e poderosa — embora, pensando bem, ninguém sabia dizer com certeza se esses olhos velhos algum dia tinham sido tão duros, ou se aquele corpo velho alguma vez tinha assumido essa pose.

Imediatamente o novo cacique colocou seu aprendiz a preparar os ritos funerários e chamou os três jovens mais rápidos para levarem mensagens às tribos inimigas.

O antigo cacique havia sido um guerreiro brilhante e um líder exigente, mas o novo parecia ter planos sem fim. As roças importantes foram reparadas, as outras queimadas; as despensas da aldeia foram organizadas e trazidas para a oca mais central, e essa foi reforçada; ele colocou vigias nas árvores mais altas por um longo território; até novas pinguelas ele mandou construir; e por fim, mas não por último, as facas foram afiadas e os arcos reamarrados e as flechas banhadas em curare.

Os mensageiros foram e voltaram e foram e voltaram, e mais uma vez foram e voltaram. Então ficou marcado para a próxima segunda lua um concílio de todos os Caciques que a tribo conhecia.

E naquela lua as danças foram dançadas, o cauim foi distribuído, a fogueira queimou alta, o cachimbo foi fumado, como devia ser.

Quando era finalmente sua vez de falar, o novo Cacique falou assim: “Faleceu um forte guerreiro. Sob suas ordens nossa tribo se tornou forte. No lugar dele vocês vêem um velho. E esse velho vai hoje lhes oferecer tributo. Cinquenta cestos de mandioca, por ano, por três anos, para os três caciques mais fortes entre vocês. É uma oferta generosa, mas talvez alguém pense que pode se aproveitar de nossa fraqueza, fazer guerra com minha tribo, e levar tudo o que temos, e tomar nossas mulheres. Se isso acontecer, eu perecerei na primeira batalha — meus ossos não podem mais levantar um tacape. Muitos da minha tribo morrerão. Mas então um dos meus jovens generais assumirá o meu lugar, e então vocês morrerão. Nosso antigo chefe poderia derrotar todos vocês, e saibam que ele planejava fazer isso, e por isso ele ensinou muito aos seus jovens generais, mais do que lhe era seguro. Esses jovens saberiam cuidar de vocês, mas o custo seria de muitas vidas, tanto minhas quanto suas, e um velho prefere se humilhar, pagar tributo, e pedir que deixemos a grande guerra para que nossos filhos a lutem.”

No raiar do dia seguinte os tributos foram aceitos.

Nos três anos seguintes, o Cacique proibiu que os jovens treinassem a guerra, mas nunca tentou descobrir para onde eles iam para desobedecer sua ordem, e não pareceu se importar que o seu antigo aprendiz participasse dos jogos.

Um dia, três anos depois, um dos jovens, um dos mais fracos mas que tinha a voz mais linda e era um grande pescador, esse jovem ofereceu um pescado à jovem moça que o mais forte guerreiro queria desposar. O Cacique estava passando perto e tropeçou e, ao tropeçar, derrubou o peixe no chão. O jovem gritou e o Cacique pisou no peixe. O jovem, desesperado, lhe deu um murro. E então o Cacique decretou que aquilo era um desafio.

Eles lutaram naquela mesma noite, e a tribo toda se espantou com a ferocidade do seu Cacique, de como aquele velho podia lutar com tanta garra e habilidade. Por fim, os dois sangrando, os dois carregando feridas que se tornariam cicatrizes, o Cacique perdeu. O jovem, tremendo, tanto de raiva quanto de medo, se abaixou e tomou o cocar para si.

No dia seguinte, ao nascer do sol, o velho se levantou, recolheu as cinzas da fogueira para espalhar em suas feridas, chamou as anciãs da tribo a anunciou qual era o dia propício para o casamento do novo Cacique com a bela jovem.

E então se foi para a mata, para não voltar.

Mas dizem que o jovem Cacique fugia na lua nova para, na escuridão da mata, ver o velho e pedir-lhe conselho.

O filho do neto do jovem Cacique tornou-se grande líder de toda a região, e foi muito sábio e forte.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: