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O problema das “Políticas Identitárias” é que os defensores disso agem como se todo mundo fosse obrigado a se importar com as questões que eles se importam.

Um tal de Mike Rugnetta do Iultubiu coloca a questão de uma forma ótima pra criticar (note-se que a tradução é minha):

Se alguma obra envolve pessoas, que necessariamente possuem identidades, mesmo que sejam pessoas ficcionais, essa obra contém Políticas Identitárias.

Mas dizer que “pessoas necessariamente têm identidade” é meio sacana, e acho que é importante esclarecer como exatamente é sacana.

Pessoas necessariamente são alguém, e uma outra pessoa necessariamente pode identificar essas pessoas. Você pode olhar pra alguém e ver uma série de características que, em algum sentido, ajudam a construir a identidade dessa pessoa. Mas uma Política Identitária envolve uma noção bem diferente de «Identidade». Política Identitária quer dizer usar essas características para organizar jogos políticos.

Identidade então não trata mais de cognição, mas de pertencimento. Não se trata mais de saber que tipo de coisa alguém é, mas de saber de quais grupos ele participa, e quais papéis ele representa nos jogos políticos.

Identidade como pertencimento certamente é uma coisa política, no sentido do vídeo, mas por definição: O tal Mike está definindo Identidade como aquilo que te liga aos processos políticos. Mas você poderia recusar essas ligações. Claro que seres humanos precisam de ligações com outros seres humanos, mas esses laços são criados, eles não aparecem magicamente de uma coisa misteriosa chamada identidade.

Por exemplo, antes dos europeus chegarem na América do Norte, os índios não eram “Peles Vermelhas”. Eles eram só gente. Eles até tinham pele, e a pele deles até tinha uma cor, mas isso não era uma identidade. Justamente porque não existia um jogo político ao redor dessas características.

Quando você faz a identidade ser uma questão, você está fazendo uma manobra política. Você está forçando certas características pessoais a serem colocadas em jogo. E pode muito bem ser que as pessoas em questão não queiram expôr essas características em público.

Então quando os homossexuais fazem um escândalo por não poderem beijar na boca publicamente, convenientemente se esquecem que todas as manifestações de sexualidade são mal vistas na sociedade que é basicamente moralista. Sou sempre favorável à combater a pudicícia, mas o escândalo organiza um combate muito diferente. Esse escândalo tem o objetivo de criar uma batalha em que ser gay é a questão fundamental. E portanto essa questão injeta a identidade à força num processo político. Isso cria um Nós contra Eles, e portanto força outros gays a entrarem na luta, mesmo que esses outros gays preferissem não se envolver e continuar beijando em privado.

E por mais que essa manobra política não seja errada em si, ela certamente é uma jogada política, e uma jogada arriscada. Dizer que “todo mundo tem identidade” e que “trata-se apenas de revelá-la” é bem sacana. Ou, usando o jargão, falar isso justifica e naturaliza o privilégio de determinar quais são os termos da discussão.

Quando a segunda onda do Feminismo criou o slogan “O Pessoal é Político”, isso foi uma tentativa de tomar poder, e certamente não foi ingênua. Generalizando exageradamente, você pode dizer que tudo é político, assim como você poderia dizer que tudo é elétrico porque prótons têm carga elétrica, mas isso não quer dizer nada. Se tudo é um jogo de poder, você não pode esquecer que o tabuleiro desse jogo tem uma série de divisões, e que as partes desse jogo não têm que se misturar. Ou seja, confundir políticas partidárias com políticas domésticas com políticas de relacionamento (e assim por diante) não é nem uma coisa inocente de se fazer, e nem mesmo sã.

Portanto, hoje, as Políticas Identitárias se tornaram uma forma de tornar interações equilibradas em disputas moralistas e (portanto) desequilibradas. É disso que se está falando quando se pede para “não misturar política no assunto”.

Se você levar a coisa mais longe, essa politização dos assuntos se torna um ataque denial-of-service. Ou seja, se você levantar a questão uma ou duas vezes, em situações em que há tempo e espaço para discutir o assunto, isso é uma forma de crítica muito interessante. Mas se você levanta a questão o tempo inteiro, em situações em que parar para discutir seria literalmente parar de fazer o que estávamos fazendo antes, você basicamente está impedindo o funcionamento normal da sociedade.

Esse “neomoralista” se diz o salvador da humanidade, mas no fundo tudo o que ele faz é atrapalhar a vida dos outros, sem falar que ele sempre tem que ser o centro das atenções. E o pior é que, se você tentar conversar com essa pessoa, mostrar pra ela que você sabe que é importante a questão mas que há momentos melhores de discutir, essa pessoa passa a te atacar de forma pessoal, trazendo à tona características suas privadas que não são da conta dela e que você não queria revelar. Ou seja, o ataque final da Política Identitária é sempre o que eles chamam de “Outing”, o golpe baixo de expôr o outro. (É por isso que a pecha de Feminazi pega tanto…)

Identidade, no sentido das Políticas da Identidade, são aquelas coisas sobre você que te importam. Coisas que você ama ou odeia sobre si mesmo. Então, se em certo sentido todo mundo tem identidade, talvez a identidade do outro não te diga respeito, talvez você não tenha o direito de usar essa identidade para os seus próprios fins políticos.

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