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Semana passada aconteceu de eu assistir dois espetáculos de dança que, infelizmente, muito pouca gente vai ver (Santas Quebradas, da Tribo Cia de Dança, e Distância entre II, da Quasar Cia de Dança). Dois espetáculos extremamente diferentes, de duas companhias extremamente diferentes, mas eu encontrei um movimento praticamente igual nos dois.

Um casal. Um deles está no chão. O outro leva o pé até a sua cara, e empurra.

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Não tem muito que se possa discutir com um chute na cara. Pesado. Um mundo de emoções e significados habitam esse movimento.

No entanto, me chamou atenção que, de alguma maneira, esse mesmo movimento é extremamente diferente nas duas peças, ele significa uma coisa diferente, embora fisicamente seja igual. Só que essa diferença é muito difícil de explicar. Basicamente, tem a ver com a literalidade.

(Antes de continuar, devo fazer o seguinte esclarecimento: É muito fácil entender o que estou escrevendo aqui como se eu estivesse dizendo que a Quasar é melhor que a Tribo. E é fato que eu amo a Quasar mais do que praticamente qualquer outra coisa, incluindo aí comidas, filmes, lugares, etc. E aliás, dizer que você dança menos que a Quasar é como dizer que você é mais pobre que o Bill Gates, que não quer dizer nada porque todo mundo é. Mas o que me interessa aqui não é quem é melhor que quem, e sim a diferença de abordagem. Ou seja, a diferença que eu estou tentando falar não é de qualidade, mas de abordagem. Não é que uma companhia consiga fazer e a outra não, mas que elas estão tentando fazer coisas diferentes.)

No espetáculo da Cia Tribo, esse pé na cara é literal, quer dizer, estamos diante da representação de uma cena que aconteceu (seja no mundo real ou no mundo da ficção não importa). Aquelas são ações que as pessoas desempenharam. Eu não descubro que alguém chutou alguém através de um esforço de interpretação, eu vejo um chute.

Na Quasar, o pé na cara é um símbolo. Ninguém chutou ninguém, alguém colocou o outro pra baixo quando ele já estava mal. Ou talvez até alguém tenha chutado alguém, mas isso não está sendo representado. Eu não vejo ações sendo desempenhadas, eu vejo uma dança que tem uma realidade própria.

Um é abstrato, outro é concreto.

A literalidade é mal vista, na dança. Talvez com razão, porque ela traz um alto risco de cair na mímica, na pantomima, num tipo de imitação de palhaço. Um movimento que é só literal pode ser um movimento que não importa, que não toca, que não tem energia. Por outro lado, a literalidade também pode ser direta, pode ser sincera, pode ser visceral — os movimentos da dança de rua são fascinantes porque eles são, literalmente, muito difíceis de executar. Se ser literal é ser concreto, em grande parte a dança é importante porque é concreta, porque coloca a concretude do corpo em cena.

Isso é ainda mais claro porque o próprio chute na cara não-literal da Quasar é, também, concreto. Ou seja, embora eu precise fazer uma interpretação dessa cena, embora ela seja simbólica e não narrativa, ela não é codificada. O que eu quero dizer com isso é que não existe um dicionário de símbolos coreográficos em que um chute na cara quer dizer isso, isso e aquilo. A relação entre o movimento e o símbolo não é arbitrária. Ao invés da palavra “chute” eu poderia usar “pisada” ou “agressão” ou “kick” ou, até mesmo, uma palavra que eu inventasse. Mas eu não posso convencionar que um chute na cara significa “abacaxi” ou “pragmatismo” — ou melhor, mesmo que eu faça essa convenção o chute na cara ainda é mais concreto que o significado convencionado. O chute movimento me toca mais visceralmente que o chute convenção.

Isso me fez pensar que uma das maiores forças da Quasar é exatamente conseguir andar nessa linha muito fina entre o concreto e a mímica. A Quasar parece não depender tanto do formalismo quanto outras companhias famosas. Se é pra ter um beijo, porque não ter um beijo? A literalidade pode também ser real, pode ser uma aceitação do corpo enquanto corpo, e nesse sentido é isso exatamente a essência da dança.

A literalidade ruim, a da mímica, me esconde, me protege. Não preciso me preocupar muito com o que eu estou dançando, já que tem um dicionário de convenções, que vai te dizer que um chute é mal e um beijo é bom. E é muito mais desafiador quando o chute está todo lá, com tudo o que tem de bom e de mal, com tudo o que tem de insignificante, com tudo o que tem de corpo. E o beijo, e o salto, e as poses, e as não poses. E a literalidade boa pode ser uma sinceridade profunda, quase inacreditável, que me toca como nada mais.

Mas, sinceramente, não tenho a menor ideia de como a Quasar consegue isso.

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