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Democracia é dessas palavras que significam muitas coisas, e talvez signifique coisas demais. A ideia mais comum seria um tipo de votocracia, um sistema de governo que se fundamenta no processo de eleições.

A definição “oficial” (digamos assim) é sensivelmente diferente, algo como sistema político em que o povo domina. Digamos então que existe essa definição específica da democracia* que é o poder da multidão (usando o asterisco para demarcar o uso particular).

O grande porém é que, quando uma multiplicidade de pessoas exerce poder, o resultado é algo muito diferente daquilo que imaginamos como administração, como política. Ainda é política, e ainda é poder, e de certa forma até é administração, mas é todas essas coisas de forma diferente, não convencional.

Dá a impressão de que democracia* não é governo.

A diferença é tão grande que chega a ser difícil perceber esse tipo de democracia*, mesmo quando ele está bem debaixo do nosso nariz.

Para formas de poder convencional, é muito importante apresentar-se. O poderoso precisa mostrar-se, e precisa mostrar-se como uma identidade bem constituída.

O poder pode (e deve) dar ordens específicas. Mas além disso ele precisa que a sociedade se organize ao seu redor, e se organize de forma a poder servir ao poder. Do contrário, o poder precisa recorrer à “micro-administração”, precisa mandar cada passo e cada vírgula, e isso é exponencialmente ineficiente.

Isso significa que as formas de poder mais tradicionais precisam ser capazes de moldar a cultura dos seus subordinados.

Já um poder democrático* é primariamente cultural. Ele tem efeitos culturais antes de dar ordens específicas. Em certos casos isso pode ser mais eficaz do que o poder convencional, mas mesmo nesses casos parece impotente.

Por exemplo, os movimentos estudantis costumam parecer uma série de reuniões em que se discute mais ou menos a mesma coisa infinitamente. Particularmente se você se afastar por uns anos e voltar depois. Mas é uma ilusão, pois o mais importante do movimento não é o texto do que é falado, mas o subtexto que aos poucos vai se compartilhando. Por mais ineficiente que seja como processo decisório, já que as mesmas decisões são tomadas de novo e de novo por pessoas diferentes, é extremamente eficiente como construção de coletividade, pois cada uma dessas pessoas tem a sensação de ter tomado essa mesma decisão por si mesmo. Embora as infinitas reuniões não cheguem à conclusão nenhuma (e muitas vezes quando chegam isso é sinal de que alguma coisa deu errado), elas constróem a cultura desse grupo de pessoas, e essa cultura tem um efeito profundo e duradouro — ainda que invisível. Dez anos depois, a cultura que nasceu aí vai determinar a atuação profissional da classe muito mais do que qualquer conteúdo curricular ou qualquer legislação governamental. Porém essa influência nunca aparece como um comando, e por isso é fácil achar que não há ninguém no comando.

Mas a vontade de ter alguém no comando é surpreendentemente forte, e isso gera todo tipo de mau-entendido.

Exemplo claro: As manifestações de junho de 2013 representaram um absoluto enigma para a imprensa. A estrutura democrática* de poder era interpretada como uma ausência de poder — ainda que fosse impossível fingir que não estava acontecendo algo poderoso. O enorme desentendimento ficou simbolizado pelo slogan “Não é só sobre 20 centavos”. A democracia* acontecia bem debaixo do nariz deles, e eles não sentiram nem o cheiro.

De certa forma, essa perplexidade ainda continua se desdobrando na cena política brasileira. O governo Dilma tinha uma certa noção de que não estava agradando e que era preciso mudar algo — mas nenhuma ideia do que mudar. A oposição interpretou a insatisfação geral como algum tipo de oportunidade, apenas para descobrir que o governo golpista era tão odiado quanto o governo golpeado.

Quem esteve presente nas manifestações de 2013 conseguia sentir que haviam direções comuns, um certo sabor compartilhado, mesmo que ninguém tenha sabido colocar isso em palavras. No meio da absurda heterogeneidade da multidão, havia uma visão partilhada.

Essa visão, que é um limite extremo do poder não democrático*, é a base mínima do poder democrático*. Do outro lado, a estrutura de comando que é a base mínima do poder tradicional, é um limite extremo para a democracia*.

Ou seja, quando um poder tradicional está no máximo de seu crescimento ele chega até mesmo a criar uma cultura, e a sua queda final é demarcada pela perda da capacidade de dar ordens. E para entender um poder convencional, você começa seguindo a estrutura de comando, e a partir disso tenta extrapolar a visão de mundo implicada pela estrutura.

Fazer o mesmo tipo de análise para uma democracia* sempre vai levar à conclusão de que o poder está desmoronando, porque suas estruturas de comando nunca se organizam com clareza (ou melhor, quando acontece essa organização ela transforma a democracia* numa hierarquia e muda portanto a natureza do que está acontecendo).

Como a noção de ¿O que é Poder? é, ela mesma, parte da visão de mundo gerada pelo poder, um habitante de uma sociedade hierárquica vai tender a usar exatamente as análises que encobrem a democracia*.

É claro que “democracia” pode significar muitas coisas, e esse processo coletivo é só uma possibilidade no meio de muitas outras, e não acredito que ele seja nem melhor nem pior que nenhuma outra. Mas ele é muito interessante, se você conseguir perceber quando ele acontece.

E ele tende a acontecer bem debaixo do nosso nariz…

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