Skip navigation

Quando Jon Snow ia “adotar o pretinho básico” e entrar pra Night’s Watch, todo mundo disse pra ele que aquilo era muito nobre, e muito corajoso, e coisa de um verdadeiro homem de família, e tal e coisa, mas o Tyrion Lannister falou que ia ser uma merda. Daí muito depois o Jon Snow achou que só o anão tinha falado a verdade. Só que, claro, o anão deu uma versão da história, assim como todos os outros. Acontece que a versão do anão era mais forte. Mas se você quer entender como e porque, se você quer saber onde mora a trapaça, você tem que ir além da “verdade”.

Youre Tyrion Lannister the queens brother? My greatest accomplishment!

O poder da fala do anão não está em que ela seja verdadeira, e nem em ser vista como verdadeira, mas sim que ela cria uma nova verdade pra por em jogo. Não é que ele engane o bastardinho, ou convença ele, mas antes que depois de ouvir essa fala a única forma de pensar sã e esperta e decente é pensar como o anão. Tyrion não fala mentiras, ele simplesmente manipula a realidade.

Outro exemplo, novamente do Tyrion: “Eu sou um anão. Você é um bastardo. Você vai ficar chorando as mágoas? Use esse fato, assim ninguém pode usá-lo contra você!”

Nunca se esqueça de quem você é, o mundo certamente não vai esquecer. Faça disso a sua força. Daí nunca vai se tornar a sua fraqueza. Coloque isso como uma armadura. Assim ninguém pode usar isso pra te ferir!

Não se trata de uma descrição. “Use isso como uma armadura” não transmite algo que já existia antes, independente de ser dito. Não dá pra explicar essa frase simplesmente como informação, como conteúdo transportado por código. Mesmo que essa fala esteja em relação com o mundo, a propriedade mais importante dela é que ela abre possibilidades novas dentro desse mundo.

 

Ouvindo isso, Jon Snow adota formas de agir que simplesmente não existiam para ele antes. Ele podia odiar o fato de ser bastardo, ele podia saber que existem algumas vantagens apesar de tudo, ele podia esconder ou chamar atenção para o fato de acordo com as circunstâncias, mas a possibilidade de “usar como armadura” simplesmente não era parte da realidade dele. Essa possibilidade não existia, de nenhuma maneira relevante.

(Onde exatamente acontece a invenção é uma pergunta interessante, mas surpreendentemente inútil…)

O ato erístico não é nem uma ação material nem uma ação de significados, mas essencialmente uma ação de deslocar a realidade. O seu efeito não é epistêmico, não se trata de um conhecimento, mas sim ontológico, uma manipulação do contexto onde acontece a vida. Está além de significados. É mais abstrato que significados.

Outro exemplo: “Os Lannister sempre pagam suas dívidas”. Isso é um símbolo? É um fato concreto? Nem uma coisa nem outra. É uma mistura de histórias e piadas e negociações. É uma fabulação, mas das mais úteis: Salva o pescoço de Tyrion mais de uma vez. Essa frase proclama que ser Lannister é estar preso à obrigação de arranjar o dinheiro no final das contas, mas também proclama que ser Lannister é serr mais rico que você. É uma restrição de certa forma, mas também é uma vantagem. Essa ideia dá aos Lannister uma maneira a mais de manipular todo mundo e por isso tornar-se tão ricos quanto eles se dizem, fazendo a profecia realizar a si mesma.

A essência da coisa é que viver num mundo que contém essa frase e viver num mundo que não a contém são duas coisas diferentes, mesmo se a quantidade de moedas de ouro no cofre da Casterly Rock é exatamente a mesma em ambos os mundos. É uma vida diferente mesmo que tudo seja igual menos a frase!

Sempre se diz que “o Mapa não é o Território”, e isso por assim dizer é verdade, essa frase é sã e importante. Mas é preciso lembrar que o Território contém Mapas, por mais que nenhum mapa possa realmente conter o território a que se refere. Mesmo que as suas palavras não possam mudar os fatos, elas são fatos elas mesmas, e o conjunto de todos os fatos existentes muda assim que você adiciona a sua nova fala.

Erística é mais que palavras, é a manipulação desse conjunto de fatos que chamamos de realidade.

Mentes mais fracas, quando ouvem falar de “manipular a realidade”, já acham que elas podem “eu desejo ter um pônei”.  Isso é bobo — e bobeira não é erística!

 

ch870113.gif

É claro, o ato erístico não acontece necessariamente em palavras, qualquer performance pode ser erística, mas acontece que as palavras provêm flexibilidade. Essa flexibilidade constantemente supera uma maior “força referencial”, e é exatamente por isso que a erística não trata de convencer as pessoas mas de manipular a realidade delas: E a realidade atende à complexidade.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: