Skip navigation

Um amigo me perguntou isso aí em cima. Eu seria relapso se não apresentasse a resposta do mais sábio dos sábios:

Dizimar seus inimigos e estuprar suas esposas. — Genghis Khan

Isso é uma piada. Vivemos num mundo tão tosco que eu sou obrigado a colocar uma retratação depois.

O lance é que há um milhão de coisas “espertas” pra se dizer depois dessa pergunta, mas, no fundo, nenhuma dessas coisas responde. Nesses casos, eu tendo a pressupor que a pergunta está mal formulada — ou, inversamente negando, que a pergunta tem baixo poder de penetração.

Isso também foi uma piada.

Sentido é coisa da semiótica, e só símbolos tem sentidos, então perguntar o sentido da vida é pressupor ela tenha sentido e portanto que seja um símbolo. A vida não é um símbolo.

A vida pode ser interpretada como um signo, mas ela não é um signo.

Ou seja, se a vida fosse um símbolo, era questão de olhar no dicionário, e pronto! Já teríamos o sentido da vida. 127 mil filósofos perderiam o emprego.

Quando eu pergunto “¿Qual o sentido da vida?” há uma vontade de saber, há um anseio de alguma coisa, mas acho que esse anseio é nebuloso, pisciano, confuso, vago, latente.

Talvez nós só nos perguntamos “¿Qual o sentido da vida?” por estarmos acostumados a procurar coisas em dicionários.

Pois, veja bem, eu também me pergunto isso, o tempo todo. Ainda mais com o mundo do jeito que está, com a enxurrada de asneira que se ouve todo santo dia, com a falta de noção habitual contemporânea. Pois seria tentador passar no McDonudis e comprar um MacSentido — querendo dizer que as vezes até uma resposta superficial pra essa pergunta às vezes é um paliativo gostoso.

Anyway, mesmo que eu empatize com a pergunta, eu sinta alguma coisa mais ou menos parecida com o que o meu amigo sentia quando fez a pergunta, ainda assim eu sustento que a pergunta está mal formulada. Não no sentido de que eu não entenda — embora eu não entendo, mas isso não é exclusividade dessa pergunta, nem um pouco — mas sim porque essa pergunta revela pouco a respeito do “território” que queremos explorar. A pergunta responde pouco. O que parece estranho mas, no fundo, é como as coisas são: Perguntas respondem, e respostas confundem.

Voltando. Assumindo que a vida não seja símbolo, é possível re-estruturar filosoficamente essa pergunta de formas que a tornem mais reveladora. Tipo:

  • Qual a motivação para continuar vivendo?
  • Qual a ambição da vida?
  • Qual é o valor da vida?
    • Primariamente, no sentido de “o que faz a vida valer à pena?”
    • Mas que facilmente poderíamos sacanear em “Quantos reais custa uma vida?” (ou, pra piorar, “Quanto custa um jagunço?”)
  • Qual é a forma mais agradável de viver?
  • Qual é a beleza da vida?
  • E pra sacanear geral, vou no “Dicionário de Idéias Afins” e consulto “Propósito”: finalidade, desejo, objetivo, programa, escopo, meta, empenho tendência, destino, ofício, resolução, estratégia. Posso perguntar “Qual o ___ da vida?” pra todos esses.

No entanto, eu ainda sinto que essas todas são reificações da pergunta, quer dizer, simplificações tão grosseiras quanto ir no dicionário e ler a definição de vida. Pra deixar bem claro (já que vivemos nesse mundo de pré-retratações compulsórias) todas essas perguntas são extremamente úteis, e válidas, e exercícios filosóficos importantes. São reificações certamente, mas reificações que tem o potencial de servir a propósitos maiores, ou seja, são simplificações que, mais à frente, podem se tornar parte de respostas maiores e menos simplórias.

Em parte, uma não simplificação da pergunta, é responder, simplesmente: Dançar.

Quer dizer, se a vida tem sentido, esse sentido não está nas palavras, mas na vida como um todo, e portanto não basta saber o significado da vida, é preciso viver esse significado, por assim dizer “aplicar” esse significado à tudo o que se vive. Não apenas agir, mas agir com sentido — e o povo da dança acha que “agir com sentido” é praticamente a mesma coisa que “dançar”.

Só que essa é, mais uma vez, uma reificação. Pode ser uma reificação menos pior (pois ao menos me aponta um ethos do viver), mas ainda reificação, pois:

  • dança = vida + sentido
  • sentido = dança + vida
  • vida = sentido + dança

Ou seja, no fundo, só mudei a ordem das palavras. “O sentido da vida tem que ser procurado na vida”, foi mais ou menos o que eu disse. Nas palavras do meu amigo, “a velha tautologia existencialista”.

Só que, obviamente, quando você está deprimido esse papinho de que a vida tem valor nela mesma, que é preciso ter prazer em respirar, isso não passa de um papinho.

Talvez, fazendo filosofia com o porrete, poderia perguntar: ¿Que tipo de resposta pra ¿Qual o sentido da vida? me ajudaria quando eu estivesse deprimido? (Tipo hoje agora nesse momento).

Acho que a resposta é um abraço.

Sem piada, dessa vez. Talvez um abraço seja todo o sentido que a gente pode querer nessa vida. Mas não é só a sensação do abraço que te dá a sensação de sentido. Alguns abraços, talvez, tem sentido neles mesmos.

Em parte porque o sentido não está na gente mesmo. Eu sozinho sou uma coisa sem sentido.

(E pra piorar o mundo superpopulado é um mundo super solitário — porque o ser humano é um bicho essencialmente perigoso e um monte de seres humanos é um monte de perigo, portanto tempos de multidão são tempos de se esconder, tanto fisicamente quanto existencialmente.)

E agora, além de “A pergunta está mal formulada” talvez eu esteja dizendo “A pergunta é impossível”. Talvez eu esteja dizendo que no fundo o sentido da vida seja inalcançável tanto quanto saber o que o outro sente é inalcançável — quer dizer, não posso ver o mundo através dos seus olhos então tenho que fazer um esforço de olhar o mundo de muitos pontos de vista diferentes (subir na cadeira como na “Sociedade dos Poetas Mortos”, mas no caso subir em muitas e muitas cadeiras) pra talvez me aproximar da possibilidade de talvez quem sabe contudo todavia me aproximar do seu ponto de vista.

E quanto mais você abre o seu ponto de vista, mais se distancia também do ponto de vista dos outros — porque o ser humano é também essencialmente preguiçoso e em geral não faz esse exercício.

Eu também não sei qual o sentido da vida. Assim como não o sabia Sartre, Heráclito, Nietzsche, etc. Mas se eu tiver que responder, tipo prova pegadinha, eu diria que o sentido da vida é um exercício, e que o fundamento desse exercício é sair do próprio umbigo.

E, pra ganhar nota extra, diria também que a insensibilidade do mundo contemporâneo atrapalha esse exercício, e que é preciso lutar contra essa insensibilidade, e que talvez dar abraços significativos seja a única forma de luta — ou uma mensagem de vez em quando também — e isso é uma forma de dizer obrigado.

One Trackback/Pingback

  1. […] be even harder to get a hug good enough to qualify (just figured it right now after translating most of the thing), but some hugs are meaning in […]

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: