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Nos bons e velhos tempos quando ainda existia feminismo, eu era um calouro sem-noção e arranjei uma namorada muito f0d4 que me ensinou várias coisas importantes. Uma vez essa menina falou pra eu ir em alguma coisa de feminismo, tipo uma manifestação ou encontro, e eu respondi “Mas eu não sou mulher!”. Ela fez uma cara de vergonha alheia, respirou fundo e disse “Você não sabe do que você tá falando…”  e me deu uns fanzine pra ler, depois umas xerox, depois Haraway, e assim foi. Vários anos depois estava lendo Bourdieu e Butler. E foi uma jornada, o assunto deu vários nós na minha cabeça que eu fui tendo que desenlaçar aos poucos.

Mas a tal ex-namorada me explicou desde o comecinho uma coisa muito importante: Feminismo não é o contrário de machismo. Ser feminista não quer dizer querer que as mulheres ocupem a posição de privilégio que antes os homens ocupavam, e definitivamente não quer dizer tornar as mulheres as opressoras. Portanto, não é contraditório um homem ser feminista.

Portanto: Esse papo de que feminismo é contra homens é uma estratégia clara do patriarcado para desacreditar o feminismo.

Ela também participava de um grupo de mulheres, para o qual eu não fui convidado. É claro que se eu tivesse tentado entrar nesse grupo iam me botar pra correr. Mas daí a “homem não pode ser feminista” há uma enorme distância.

Só que hoje se tornou lugar comum que homem não pode ser feminista. O feminismo do tipo que minha ex me ensinou não existe mais, existe uma outra coisa, que é muito diferente mas tem o mesmo nome. Um feminismo que diz que homem não entra. Não é a primeira vez que o feminismo se metamorfoseia. Esse feminismo que eu aprendi 20 anos atrás é mais ou menos classificado como feminismo da terceira onda. O discurso atual sobre feminismo se finge de terceira onda, mas alguma coisa muito importante mudou — vamos dizer que seja um feminismo de quarta onda.

Esse novo feminismo gira muito sobre o tema do “pertencimento”, sobre essa coisa de identificar quem é do meu time e quem não é. O problema é que sempre que você trabalha com times você desperta uma hostilidade contra o time inimigo. Cognitivamente mesmo. Quer dizer, o mecanismo de identificar {pertence|não-pertence} é o mesmo que identifica {amigo|inimigo} que é o mecanismo que faz você desconfiar de tudo o que o seu inimigo faça ou diga. E a minha experiência com esse novo feminismo é parecida com colocar a mão na caixa de marimbondos, toda vez que eu tentei eu me arrependi. Só que isso me dói, porque antes eu me identificava com o feminismo, eu achava que esse era o meu time. Mas tenho sido informado de que não. Por isso, quando uma garota (maravilhosa) postou esses dias que era contra isso de que “homem não pode” e que ela vinha tendo conversas produtivas sobre gênero com homens, eu me empolguei e postei:

Eu te amo para todo sempre e amém -- e queria adicionar o fato de que, eu, que em geral li mais da biografia feminista do que 99% das feminazi, em geral sou alvo desse discurso homem-não-pode-ser-feminista das formas mais escrotas e degradantes possíveis, do tipo as mina viram pra mim e literalmente falam que o meu sofrimento não importa e que foda-se o que eu passei depois de eu ter dado um exemplo de como o patriarcado também me prejudica

Post no facebuqui

Apareceu um time de amigas dessa amiga pra repreendê-la por estar falando coisas pecaminosas e contrárias ao dogma catfeminista e aproveitou para castigar-me, apontando que eu dizer que li isso ou aquilo era uma postura patriarcal, que deslegitimava o discurso dela, e que portanto eu era um perfeito exemplo do que ela tava falando.

(Se você que escreveu aquilo está lendo isso: Desculpas. Sinceramente, devia ter entendido que esse era um espaço público e mandado minha resposta pra B. em privado. Me parece que ela não se sentiu desapoderada pelo que eu falei. Se você se sentiu, sinceramente, não era minha intenção. No entanto, você deve admitir que quem estava discordando da B. e recriminando-a por falar isso ou aquilo era você.)

Pode ser. Mas, por exemplo, o que ela falou é quase uma citação de Bourdieu, de que os discursos são expressões das relações de poder. Pierre Bourdieu, um homem. Portanto o fato de ela reproduzir essa opinião é prova de que ela está errada, de que um homem pode sim produzir ideias que são úteis para a luta pelos direitos das mulheres. A mesma contradição aparece o tempo inteiro nesse bafafá. Uma outra mulher falou na mesma discussão: “nao fica cheio de ‘eu acho’ sobre uma parada q ele nao tem q achar é nada”. Daí eu não consigo achar diferença entre isso e “lugar de homem é na cozinha”.

Muito mais do que isso, a resposta dela, de que eu estava sendo arrogante, ignorou completamente o que eu realmente queria dizer: Eu também tenho uma dor. Ela ignorou completamente a minha dor, assim como o feminismo acusava o patriarcado de ignorar a dor da mulher.

Isso é especialmente difícil pra mim porque o feminismo me ajudou muito a entender a minha dor. O feminismo me ajudou em um monte de coisas, e esse feminismo que eu tô falando, de Bourdieu e Butler, de Haraway, isso pra mim vai muito além de “defender mulheres”, pra mim isso é uma obra fundamental da humanidade, algo assim no nível da filosofia grega clássica ou da doutrina zen-budista, uma coisa que daqui a 2000 anos ainda vai ser estudada e valorizada. Mas o feminismo também foi importante pra mim numa dimensão particular, subjetiva.

Por exemplo, foi o feminismo que me fez entender que eu fui estuprado. Uma vez eu estava ficando com uma garota, e eu tinha pensado que talvez ela quisesse dar pra mim mas eu tinha chegado à conclusão de que eu não queria, eu tinha isso bem claro pra mim, só que aí ela cheirou um monte de cocaína, me levou num quarto e me comeu. Daí me ajudou saber que muitas meninas que foram estupradas ficam se sentindo culpadas por terem ficado excitadas, e que é super importante falar pra elas que não tem nada a ver. E mesmo assim demorei alguns anos pra entender que eu ter tido uma ereção não diminuía o fato da situação ter sido super violenta (na verdade eu tive uma ejaculação precoce, então a coisa é um pouco mais complicada, mas também isso o feminismo me ajudou a entender que essas situações nunca são simples). E demorei mais ainda pra entender que foi por isso que, depois, eu passei a ter um super problema de ereção, porque eu simplesmente tenho muita dificuldade de acreditar que a mulher está interessada no que eu sinto ou quero. E essa é só uma parte da história. Eu sou um homem que se encaixa muito pouco no estereótipo de homem, e o feminismo me ajudou a viver com isso, de muito mais formas do que daria pra colocar aqui.

Por isso, me dói muito esse papo de que homem não pode ser feminista. Inclusive isso me puxa pra um lado que horroriza as feminazi, que é o MRA, que eu admito que é super radical e exagerado. Mas quando o MRA me diz que 10% da população carcerária é estuprada regularmente, o que no Brazil dá umas 60.000 pessoas, e uma garota me responde que não dá pra comparar porque eles são bandidos, eu não consigo deixar de pensar que eu não quero fazer parte de nenhum grupo que é capaz de dizer que 60.000 estupros não é uma questão.

O feminismo que eu conhecia era inteiro construído encima da premissa de que o que tem entre as suas pernas não determina quem é você, e essas mulheres que se acreditam feministas estão fazendo justamente um discurso diametralmente oposto. Não diferente, mas exatamente contrário.

E isso é exatamente o que a minha ex, 20 anos atrás, me dizia que era a estratégia do patriarcado. Então, pra mim, e imagino que pra muita gente que se identificava com esse feminismo de terceira onda, liberal, sex-positive, antropológico, fica parecendo que não existe mais feminismo. Dá a impressão de que o patriarcado, depois de anos tentando fazer o feminismo de bicho-papão, finalmente sacou que dava muito mais certo pegar umas garotas, colocar roupa de punk nelas, chamar elas de feministas, e ensinar elas a serem raivosas — e o feminismo se implodiria sozinho.

Eu acredito muito, mas muito mesmo, na igualdade de gênero. E acredito também numa parada de desnaturalização, de tentar entender que o que tem entre as suas pernas não determina o que você é, que as possibilidades são infinitas — só que eu também acho que entender isso é super difícil. Tipo, eu não acho que eu realmente entendi isso. Tipo, o tal do Bourdieu é um dos 5 livros que eu li e acho que não entendi, na vida. Tipo, eu faço dança contemporânea porque isso me ajuda a questionar o corpo. Ou seja, essas questões todas não são pra mim um direito inato. Não é porque eu nasci homem que eu posso falar essas coisas. E se eu tivesse nascido mulher, da mesma forma, também não teria direito de nada. Eu teria que ler muito, estudar muito, questionar muito, me auto-analizar muito, pra entender quão profundas essas coisas todas são.

Atualmente, feminismo é um direito inato das mulheres. Se você nasceu com um útero, você tem o direito de ser feminista. Se não, azar o seu. Você não faz parte do clubinho.

Portanto, infelizmente, tive que parar de ser feminista. Não foi opção minha. E me custou. Mas, realmente não tem nada o que eu possa fazer. Eu tenho um pinto, e isso me torna incapaz. Essa é a natureza, a realidade, as coisas são como são.

Eu ainda continuo acreditando na igualdade de gênero, claro. Acho que eu sou androginista.

One Comment

  1. post pra ganhar biscoito da tal menina e tentar pegar ela
    típico


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