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No último ano uma conversa se repetiu muitas vezes, mais ou menos assim:

Amiga: Daí eu me senti muito usada.
Eu: Bom, homens também se sentem usados às vezes.
Amiga: Quê?
Eu: Bom, se uma mulher for eskrota com um cara, o cara vai sofrer, como qualquer pessoa normal.
Amiga: Não entendo.

E aí a coisa degringola porque a mina não consegue compreender que um homem possa se sentir usado. Essa idéia simplesmente não entra na cabeça delas. Se eu insisto no assunto começa a parecer que não estamos falando a mesma língua.

Vou dar um exemplo que é uma história meio longa. Uma mina que mora muito muito longe me convida pra um evento na cidade dela e eu tava mais ou menos naquela região do país e vou. Daí a gente se encontra, toma uma, etc. Uma hora eu falo que tá tarde e que tô indo pro meu hotel, e ela faz uma cara de frustrada. Daí eu falo que blz, pra ela ir pro meu hotel junto. Daí quando a gente tira a roupa eu fico com a impressão que ela tem nojo do meu pinto e consequentemente broxo de com força. Daí normal, no hard feelings, continuamos amigos. Mas meses depois ela manda no feicebuque um “pq vc não vem pra cá?” que eu respondo “pq é longe pra krlho” e por isso eu viro o “amigo secreto” dela (um desses memes, em que as mulheres fazem reclamações anônimas de homens que as assediaram). O texto é uma pérola:

Se não vai rolar sexo ele não vem me visitar.

A distância entre isso e os meus sentimentos é tão grande que preferi ignorar. Me pareceu a única reação sensata. Mas analisemos!

A minha experiência de tentar fazer sexo com ela foi horrorosa. Por mais menina ingênua que seja a criatura, não é possível que ela não percebeu. E no entanto ela consegue fazer uma cena em que, surpreendentemente, de alguma forma bizarra, a culpa da coisa toda é minha (§cláusula anti-feminazi: idealmente ninguém colocaria culpa em ninguém, ou seja não estou dizendo que a culpa é dela).

E o pior é que, levando a coisa ao pé da letra, provavelmente rolaria sexo, se eu tentasse. Quer dizer, por mais arrogante que seja isso, essa menina em particular me quer (fica até me convidando pra ir ver ela). Se eu tivesse essa motivação toda de comer alguém eu provavelmente ainda poderia tentar.

Eu não correspondo ao estereótipo do canalha que só pensa em sexo. Eu sou uma pessoa muito mais complicada que isso. É claro que, como todo ser humano (ou ainda: como todo ser vivo multicelular…) eu gosto de sexo. E é claro que na hora de tomar decisões eu levo em consideração as possibilidades de sexo. Assim como levo em consideração um monte de outras coisas. Me colocar nesse estereótipo é uma simplificação tão extrema que chega a ser calúnia. E tenho a impressão de que isso vale não só pra mim, mas para a maioria dos homens — afinal uma compulsão sexual desse tipo em que sexo é o motivo de todas as coisas é uma doença (que aparentemente atinge 3% a 6% da população).

Mas não, aparentemente dá pra resumir a coisa toda em “não veio pq não vai rolar sexo”. Claro que isso faz ela parecer ficar bem na fita. Mas vale à pena ser grosseiro com alguém que você gosta, só pra se pagar no feissebuque? Aparentemente vale.

Mas o “pequeno” detalhe que é importante aqui é este: O que eu sinto não fez diferença.

E esse é um caso de uma menina que diz gostar de mim e me admirar. Mesmo nesse caso é fácil pra ela ignorar os meus sentimentos e pensamentos e me colocar num estereótipo masculino muito negativo. E depois de feito isso, me tratar de acordo. Será que, no dia a dia, as mulheres não acabam sendo eskrotas com os homens sem perceber?

O título do post já entrega: Na minha opinião, obviamente sim.

Eu não tenho provas disso, mas “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias“, e me parece muito mais extraordinário que um ser humano (de qualquer sexo) não se confunda com estereótipos. Eu que sou homem relativista e feminista raivoso muitas vezes me bagunço com os estereótipos. Imaginar que as mulheres sejam incapazes de fazer isso, ou por outro lado capazes de evitar isso, seria extraordinário. Ou seja, por mais que eu não tenha provas de que as mulheres são muitas vezes eskrotas com os homens, é totalmente possível que elas sejam, e seria muito incrível se elas não fossem. Normal. Somos todos humanos.

Agora, por qual raio de razão as mulheres agem como se fosse impossível um homem se sentir usado?

Eu faço essa pergunta, mas eu sei a resposta. É que entender o outro é difícil. Isso é um fato da vida. E, para os homens, é difícil entender que a mulher se sente usada. Quando a gente é jovem não entende isso muito bem. Mas a gente cresce e aprende. Tipo lá pelos 16, talvez antes. Se você não aprende isso, não pega ninguém, porque a mesma empatia que te leva a ver as merda que você fez também te leva a saber agradar na hora de agradar. De forma mais óbvia, entender as merdas que você faz é a única forma de parar de fazer merda. Agora aparentemente as mulheres não são levadas a entender isso.

Eu tenho uma hipótese de porque. Deixa eu colocar um outro exemplo.

Screen Shot 2015-06-17 at 08h47m16.png

Minha querida Naiara descreve um homem perfeito e pergunta “É pedir demais?” (§Cláusula anti-feminazi II: Pra enorme crédito dela, ela já adianta que sim, é pedir demais). Mas o interessante é exatamente como ela coloca a coisa. Cabe ao cara “saber quando e onde ser safado”. Ou seja, basicamente, ele tem que adivinhar o que ela quer. O problema é que, ao mesmo tempo, ela vai estar escondendo o que ela quer.

Talvez dizer que a mulher esconde o que quer pareça que eu estou tentando colocar a culpa na Naiara. A questão é apenas que o jogo default do relacionamento homem-mulher se baseia no homem tentando conquistar e na mulher se fazendo de difícil (assumo que o Tweet está nesse contexto porque o homem descrito poderia igualmente estar num anúncio de homem: “Forte! Bonito! Inteligente! Quanto vale? Não responda ainda porque você ainda leva de brinde essa caneca!” Eu tentei falar sobre esse jogo num post mais antigo desse blog).

É claro, isso de “adivinhe o que eu estou escondendo” isola o homem. Ou seja, dentro desse jogo o cara que se expõe e coloca pra fora as suas vontades e opiniões vai se dar mal — 99% do tempo o que ele quer é diferente do que ela quer, simplesmente porque as pessoas são diferentes.

Portanto, um cara que estabelece um diálogo, se abre, e tenta criar um relacionamento de parceria, esse cara não vai “saber onde e quando ser safado”. Em outras palavras, ele tem que ter uma safadeza que se adapte à mulher, e não mostrar a safadeza que ele realmente sente.

A coisa toda se baseia em dar preferência para a subjetividade da mulher, pro que ela sente e pensa e quer. E isso, por eliminação, quer dizer colocar a subjetividade do homem em segundo lugar. A hora e o lugar de ser safado são a hora e o lugar certos para ela. Não faz a menor diferença para ela a opinião dele de qual é a hora certa, ela não está dizendo alguma coisa do tipo “que bata bem comigo na hora de ser safado”.

E portanto a mulher vai se afastando cada vez mais dos sentimentos masculinos. Assim como, no primeiro exemplo, a menina falou que eu “não ia porque não rolava sexo”, e isso pra mim soa quase surrealista.

Voltando à Naiara, exatamente porque ela quer um cara que adivinhe quando ser safado e quando ser engraçado ela consegue caras que não partilham das safadagens ou das graças dela. Não é de se admirar que ela tenha a sensação de estar “assumindo a responsa seeempre e fazendo tudo sozinha seeeeempre“. É uma praga que ela joga nela mesma.

Me parece que o X da questão é o partilhar.

O ponto todo desse papo é justamente dizer que as mulheres muitas vezes dificultam essa partilha, e que os homens muitas vezes se sentem trapaceados por isso. É exatamente isso que as mulheres não conseguem ver. 99% das mulheres vão achar isso absurdo e vão ficar furiosas de eu falar algo assim. Aliás, o estereótipo é que a mulher é a “sensível” da relação, que é ela que presta atenção nas emoções, que é ela que tem empatia e portanto é (só) ela que consegue entender o homem.

Esse estereótipo tem muitos problemas, mas um deles é pressupor que a mulher está sempre tentando forçar o homem ao diálogo enquanto esse está sempre tentando tirar dela alguma outra coisa, na versão mais simplista sexo. Portanto a mulher sempre exigindo, e o homem sempre tentando se colocar à altura dessa exigência. A mulher é a vendedora, ela tem o “produto” que o homem precisa, e tenta tirar dele o maior preço que ele aceite pagar, tenta “enfiar a faca” nesse comprador safado. Essa é, por definição, uma relação de mão única: O “Produto” vai sempre daqui pra lá e nunca de lá pra cá. Essa relação pode funcionar, mas ela certamente não é equilibrada!

Uma vez, no carro de uma amiga, ela vez uma pergunta (não sei se pergunta retórica), que era parecida com isso:

Porque um homem que sabe conquistar uma mulher não sabe respeitar ela?

A resposta me pareceu tão óbvia que achei que não tinha entendido a pergunta. Ou pelo menos que, se eu desse pra ela a minha resposta, não ia fazer sentido pra ela.

De novo, uma relação unilateral. Não é que ela não consiga conquistar um cara respeitoso. A mulher certamente não tem que conquistar nada. Ela tem que ser conquistada.

E o que é “ser conquistada”? É ser levada a querer dar para o cara o que o cara quer. Portanto, ser tratada de uma forma que controle as vontades dela até o ponto certo. Portanto, é ser manipulada.

Daria então pra traduzir a pergunta da minha amiga assim:

Porque um cara que sabe manipular uma mulher sempre manipula ela de acordo com as vontades dele?

Ou ainda:

Porque um cara que sabe usar uma mulher usa uma mulher?

E é por isso que a resposta me parece meio óbvia.

É muito gostoso ser manipulado, ter alguém dizendo as coisas certas nas horas certas, te tratando como se você fosse a coisa mais importante do mundo. Claro. E não tem nada de errado nisso.

Mas, como tudo na vida, ser paparicada tem consequências. Uma delas é que talvez o cara que está paparicando se canse da coisa. Se uma mulher só interage com um homem quando ele está paparicando ela, mais cedo ou mais tarde o cara vai começar a se sentir como um criado. No curto prazo, a mulher que faz o cara paparicar bastante ela está se dando bem. Mas no longo prazo a mulher que se acostuma a ser paparicada começa a tratar os homens como objetos — até o ponto em que, no dia a dia, ela os desrespeita sem perceber.

Os limites entre uma coisa e outra são difíceis de ver. Às vezes você acha que tá sendo super gente boa e o cara se sente usado. Às vezes você acha que está sendo grossa e egoísta e o cara se amarra. Como eu disse lá no começo, entender as pessoas é difícil, e portanto para as mulheres entender os homens vai ser difícil também. Leva décadas e mais décadas até a gente aprender a lidar com a coisa — estou com 36 e ainda não manjo muito, por exemplo.

Normal, parte da vida.

Mas quando várias mulheres diferentes, a maioria delas pessoas liberadas e esclarecidas, simplesmente se recusam a conceber a possibilidade de que um homem se sinta usado, quando elas tratam a menção da coisa com um tipo de curiosidade como se fosse algum conto de ficção científica, bom… Tem alguma coisa errada.

Claro, a raiz do problema é que as mulheres imaginam os homens como máquinas de inseminar. Imaginam que todo homem quer simplesmente engravidar elas e sair correndo e nunca mais ouvir falar da história. Por mais que o homem tenha pensamentos e sentimentos e uma história e tudo mais, esse estereótipo diz que tudo isso são detalhes e que a essência do masculino é essa libido pansexual constante e inevitável.

Essa é uma imagem extremamente negativa do humano masculino.

É até surpreendente que eu tenha que dizer isso, mas é indigno encaixar alguém nesse estereótipo. É degradante. Se eu fosse desse jeito eu teria vergonha de mim mesmo. Sério, se os homens fossem assim, provavelmente eles viveriam no curral.

Mais do que isso, esse estereótipo é impossível. Simplesmente não dá pra sustentar esse desejo infinito que os homens “deveriam” ter. Talvez fosse até divertido se isso existisse, mas a fisiologia masculina não é assim.

Muitas vezes essa bobagem vem disfarçada de ciência. Colocam um rótulo de “darwinismo” na coisa e todo mundo parece acreditar que há alguma pesquisa por trás. A ciência que existe é variada, polêmica, inconclusiva, e muda constantemente. Os livros desse assunto que eu tenho formam uma pilha de mais de um palmo de altura, e é super incompleta. Pode acreditar: É complicado.

 

Só que não adianta argumentar. Eu falo que homens tem sentimentos e a mina já imagina uma mãe adolescente solteira com um pai sumido. A imagem é muito forte. Não tem como lutar contra um marketing desses. É muito forte. Enganoso, mas muito forte.

Uma professora minha uma vez falou que, dos casos de gravidez adolescente que ela conheceu, que quem ficava desorientado era sempre o garoto. Quando eu ouvi isso eu corrigi ela, achando que ela tinha confundido. Mas não. Ela disse que em geral as meninas encaravam bem a coisa, e que em geral sempre tinham ajuda de mãe ou avó, mas os meninos não sabiam o que fazer, não conseguiam encarar, e ficavam muito mal. É claro que vão existir mil casos de garotas que sofreram muito com uma experiência assim, mas o que essa professora estava me falando é que a dor masculina também existe, que algumas vezes é pior que a feminina, mas que a sociedade simplesmente se recusa a reconhecer isso.

Assim como a maioria das mulheres não imagina o parto na hora do sexo, mas tem um forte instinto materno, os homens também fazem sexo de forma irresponsável, mas tem um forte instinto paterno. O normal é o cara se apaixonar pelos seus filhos, não o contrário.

Dizer que um homem não se importa com seu filho é ignorar os sentimentos deles — óbvio!

Eu não conheço pessoalmente muitos casos de gravidez adolescente. Mas eu sei como o meu pai reagiu quando minha mãe se separou e me levou embora. Ele foi o pior pai do mundo, ele fez todas as cagadas possíveis, todas as chantagens, todas as furadas. E seria muito fácil enquadrar ele nessa figura do macho inseminador que engravida e depois não tá nem aí. Mas ele sempre me amou e me aceitou de uma forma muito mais incondicional do que minha mãe, de uma forma que aliás eu demorei muito para entender. Ele foi extremamente ausente. E eu com certeza culpei ele por isso, por muito tempo. Mas no final, acabei entendendo que a opção que ele tinha não era entre ser ausente ou presente. Minha mãe simplesmente me pegou e foi embora. Ele não tinha nenhuma chance de fazer nada a respeito. Mais ou menos como “quem desdenha quer comprar”, a ausência dele era uma forma de tentar ter mais controle sobre a situação, de tentar falar “você tem que me deixar ficar com os meus filhos ou eles vão ficar sem pai”. Do tipo um ou vai ou racha. Ou seja, as opções dele eram entre ser ausente por bem ou ser ausente por mal.

O cara que tem que adivinhar “quando e onde ser safado” está sempre errado: Quando ele faz alguma coisa ele é quase um estuprador, quando ele não faz nada ele é um frouxo. Mais cedo ou mais tarde, ele acaba desistindo do jogo. Ele descobre que a mulher não vai aceitar ele de jeito nenhum, que ele vai sempre ser tratado como um objeto. As opções dele não são entre ser legal ou ser eskroto, mas entre ser eskroto-panaca ou ser eskroto-sacana. É uma armadilha.

Não é agradável cair numa armadilha.

Obviamente que quando ele se sente usado, não é pra mulher que usou ele que ele vai se abrir. Ou seja, que uma menina nunca tenha ouvido um homem reclamar de se sentir usado, não quer dizer que não aconteça.

E também não quer dizer que uma mulher não deve usar um homem. Não estou tentando defender meus parceiros, nem estou tentando me defender. Se vocês mulheres querem nos usar, boa sorte.

Só estou falando que já ouvi muitas vezes essa reclamação, de que vocês estão se sentindo usadas, mas que fica parecendo, pra mim, na minha humilde opinião, que está faltando ver o óbvio.

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