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[Esse post é uma resposta à uma discussão de bar. Acho que eu não tenho competência de reproduzir exatamente as opiniões do meu interlocutor, e isso pode tornar o texto um pouco esquisito. Me pareceu que ele estava dizendo que o monoteísmo é a razão fundamental pela qual a bancada evangélica é intolerante ao ponto de impossibilitar o diálogo. Eu partilho de uma boa parte dessa crença, certamente partilho o horror e o desespero com a nossa bancada evangélica. Compartilho a intolerância contra a intolerância religiosa desse grupo. E justamente por isso acho que a questão é mais complexa, e que é preciso ser mais cauteloso com os conceitos da teoria das religiões.]

Começando do final: Mao era Católico. Se bem que eu não disse isso, minhas palavras foram: “Não quer dizer que Mao não seja Católico”. A diferença é sutil. Mas vamos lá. Mao foi profundamente influenciado por Marx, e esse por sua vez profundamente influenciado por Feuerbach.

Não estamos acostumados a ver a coisa assim, porque o resquício do debate são críticas que Marx faz a Feuerbach. No entanto, as noções de “estrutura” e “superestrutura” (que são ingredientes fundamentais da cozinha marxista) vêm diretamente de Feuerbach. A tese fundamental era de que as comunidades cristãs alemãs reproduziam os interesses da burguesia alemã e não da bíblia, muito embora as historinhas que elas contavam fossem tiradas da bíblia.

Nesse sentido, era exatamente a mesma coisa que Lutero dizia quando falava que o comércio de relíquias praticado pela instituição católica era imoral: Afirmava que isso estava de acordo com os interesses econômicos mas não de acordo com a bíblia.

No entanto, o comércio reproduzia as histórias da bíblia, o santo sudário era supostamente um objeto presente no ato 4, cena 7 da peça bíblica da ressureição. Ou seja, Lutero estava dizendo que as historinhas da bíblia não eram tão importantes quanto a sua filosofia. Que a letra da lei era menos importante que o espírito da lei. Quando Lutero fala isso, ele está reproduzindo a hermenêutica escolástica da idade média.

Cada um desses autores faz parte de uma história das ideias, muito embora em retrospectiva nós os coloquemos como novos capítulos dessa história. Consideramos Lutero como protestante, e não como católico, mas o fato é que o pensamento luterano é absolutamente impossível sem o pensamento católico. Da mesma forma, Feuerbach é impossível sem Lutero, Marx impossível sem Feuerbach, e Mao impossível sem Marx.

Daí que, embora eu tenha certeza que Mao não estava ligado à instituição católica liderada pelo papa apostólico romano, tenho também certeza que usar Mao como exemplo de que o monoteísmo é necessariamente intolerante é no mínimo complicado.

Por exemplo, o Hinduísmo é extremamente monoteísta e extremamente tolerante. Nessa tradição Brâman é a origem e a matéria de absolutamente tudo. Até mesmo os deuses maiores dessa religião, Shiva e Vixnu, são aspectos de Brâman. A tradição é tão radicalmente monoteísta que chega a ser filosoficamente difícil explicar, pois essa onipotência de Brâman se estende até a conceitos que no ocidente só aparecem com a fenomenologia. No entanto, isso não impede que eles tenham um panteão, que tem um papel extremamente parecido com o dos santos católicos. E a atitude é basicamente que qualquer prática religiosa deve estar simplesmente dando nomes diferentes para coisas que, afinal, são inomeáveis.

A intolerância do pensamento da bancada evangélica certamente está envolvida com a mesma história das ideias. Mas a conexão é muito mais complicada do que monoteísmo = intolerância.

Acreditar nessa simplificação grosseira já é perder a discussão.

Mais precisamente, é como fazer uma guerra para acabar com todas as guerras, é ser intolerante com a intolerância. Assumir que um tipo qualquer de ateísmo seja capaz de resolver qualquer questão de fundo religioso é tentar impor uma visão teológica.

Nesse sentido, o atual ateísmo contemporâneo é também herdeiro desse pensamento que eu estou chamando de católico. Embora certamente a instituição católica seja por sua vez herdeira de muitas outras coisas, escolho dar esse nome porque explicita a ligação com a nossa terrível bancada protestante, afinal católico em latim quer dizer universal, romano é quase “do reino” e apostólico é “de deus”.

É útil lembrar que o primeiro grupo que recebeu a denominação de “ateu” foram justamente os cristãos vivendo em terras romanas antes da absorção do cristianismo pelo império romano. Os outros povos subjugados pelos romanos prestavam reverência aos deuses de Roma e assim ganhavam o direito de venerar também os seus deuses autóctones. Se bem que esse relativismo romano fosse mais uma forma de etnocentrismo, pois os romanos achavam que esses outros deuses fossem apenas nomes diferentes para as mesmas coisas, não conseguindo eles compreender que existisse mais de uma realidade sobrenatural. Acontece que os cristãos encasquetaram que homenagear um deus romano de alguma forma ia contra as crenças deles. Porque exatamente eles tomaram essa posição é uma questão interessante de pesquisa no estudo das religiões, a meu ver uma questão ainda em aberto. Acontece que a forma como eles explicavam isso para os romanos não dava a entender que fosse “um deus contra outro”, deus católico VS deuses romanos, mas sim que os cristãos não acreditavam em deuses, pois os cristãos diziam que a prática religiosa era independente de templos e que o contato com a divindade devia acontecer no cotidiano. Daí, ateus.

A intolerância religiosa dos cristãos tem raízes tão antigas quanto essas, ou talvez até mais, na prática judaica de co-optar deuses de outros grupos e caracterizá-los como maus. Assim por exemplo Belzebu e Satanás eram entidades veneradas por grupos palestinos em algum momento antes de cristo, e aos poucos essas crenças vão sendo colocadas como maus exemplos. Mas não se trata de monoteísmo, mas justamente o contrário, pois reconhece os deuses dos outros, reconhece que esses deuses sejam diferentes dos deuses judaicos, e a partir daí faz um julgamento moral. Nesse sentido, é perfeitamente possível imaginar que Odin e Tupã fossem preservados pela tradição supostamente monoteísta ainda que os povos que veneravam tais entidades tenham desaparecido, mais ou menos como Belzebu e Satanás foram, ainda que de forma absurdamente distorcida. E no caso de Odin, provavelmente a maior parte do que conhecemos sobre a mitologia nórdica foi trazida até nós por monastérios católicos, pelo fato de que durante a idade média européia a única instituição que não sucumbiu ao analfabetismo foi a igreja católica.

É óbvio que eu não estou dizendo que a bancada evangélica de alguma forma aceita práticas religiosas diferentes das suas. O que eu estou dizendo é que essa não-aceitação é política e não religiosa.

Posto de outra forma, se por algum acaso bizarro a bancada evangélica fosse politeísta, ainda assim ela seria tão raivosa e intolerante quanto.

A atitude da bancada evangélica é basicamente de que qualquer discurso, faça ele sentido ou não, seja ele bonito ou não, seja ele feito por um preto ou um branco, deve ser ignorado como palavras provavelmente vazias, e que a única coisa que importa são os objetivos da igreja. Assustador, sem dúvida. Mas é uma atitude muito válida num congresso em que os discursos normalmente são vazios, e normalmente refletem interesses escusos. Mais do que simplesmente colocar uma máscara de Belzebu na bancada evangélica, me parece preciso buscar táticas e estratégias contra a sua atitude.

Uma tática que certamente não vai funcionar é tentar convencer um evangélico das vantagens do politeísmo.

E pode até ser que o problema da bancada evangélica simplesmente não tenha solução. Mas eu acredito que, se há soluções, um caminho seguro de não chegar nelas é simplificar a posição política dos evangélicos em algum dogma do tipo monoteísmo = intolerância. Em outras palavras, evangélicos são pessoas como nós, e tem crenças religiosas como nós (ou arreligiosas como nós dependendo do caso), e a vida continua. O processo político continua. E o processo político deve incorporar também essas pessoas que preferem não ouvir. Simplesmente porque o processo político deve incorporar mais pessoas. Inclusive monoteístas. No caso evangélico essa incorporação não pode ser por vias teológicas, ou seja não adianta discutir religião, mesmo que seja discutir politeísmo. São necessárias estratégias mais inteligentes.

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