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No presente momento histórico em que escrevo isso a direita brasileira acusa a esquerda de uma crise econômica que era geopoliticamente inevitável e a esquerda não só assume a culpa como se esquece de que o seu papel, enquanto esquerda, é justamente não deixar que a economia monopolize a política. Um jogo de palhaços, que só parece comparativamente normal porque ao redor do mundo a coisa é ainda pior: Nos USA o candidato mais notório usa uma peruca que, literalmente, ficaria bem na cabeça de um palhaço; a Grécia está na merda mas mesmo assim é invadida por hordas de refugiados; as rotas marítimas são dominadas por piratas da Etiópia; o Japão demora 5 anos pra (não) resolver o acidente de Fukushima; China e Rússia têm duas raposas velhacas como líderes que podem até não ser piada pronta mas são certamente piada de mal gosto; e o que passa por “oposição” a tudo isso é um tipo de defesa arrogante e moralista do homossexualismo que, convenhamos, não é nenhuma novidade nem terceira via. Enquanto tudo isso acontece, o clima foi pro brejo, rapidamente se aproximando dos limites em que tentativas humanas de resistência se tornarão tão risíveis quanto a criança que tenta esvaziar o mar com seu baldinho de brinquedo.

Qualquer um que passe 15 minutos pensando sobre isso tudo (ao invés de vomitar e re-engolir seguidamente a conversa mole oficial) vai perceber que nosso mundo só “finge que está de pé” por força do hábito. A merda já bateu na bunda e a coisa tá feia tem tempo, mas tão mas tão feia que não temos nem como falar disso. Os problemas são tão monstruosos que até dá pra fingir que eles não existem. (Isn’t it ironic?)

Sendo um garoto com um certo leve autismo, as coisas que não fazem sentido sempre me incomodaram muito mais do que deviam, daí pensei muito mais do que 15 minutos nisso tudo, mas eu sempre chegava só numa perplexidade, numa sensação de que tudo parece meio estranho. E isso tem tempo. Tipo: Caiu o muro de Berlin e as coisas ficaram estranhas, mas… antes as coisas já eram estranhas. A Primavera Árabe deixou o Oriente Médio uma zona, mas… antes já era uma zona. E cada vez mais, nisso de que “antes já era estranho”, fui ficando com a impressão de que a estranheza era bem velhinha.

Mas velha quanto? Porque com a atitude etnográfica certa dá pra fazer qualquer coisa parecer estranha (re.: Nacirema). Mas a estranheza que eu tô falando tem um elemento de “não dá pra acreditar que alguém algum dia por alguma razão achou que isso ia dar certo”. Daí tentei fazer uma arqueologia desse sentimento.

Minha resposta? O Choque do Petróleo dos anos 70.

Parece um exagero, né? Vai vendo. Tatcher e Reagan mandam ♥ pro capital especulativo na base do lucro agora e fsck-se as consequências, Hollywood supera Detroit ou seja o cinema norteamericano passa a gerar mais lucro que a indústria automotiva, Ladas cedem lugar ao McDonalds, começa a guerra contra as drogas que vai colocar ½ da população negra do USA na cadeia, etc etc. A OPEC já existia na década de 60, mas ela começa a fazer linha dura apenas quando a produção interna de petróleo dos USA começa a cair. Tudo isso tem a ver com uma mudança estratégica, basicamente passando de «crescer» para «decrescer», que otimisticamente poderíamos chamar de «bater em retirada».

De forma geral, nada acabou mas tudo foi ficando pior, tudo foi ficando mais precário, de pouquinho em pouquinho, muitas vezes de forma que poderia parecer uma melhora. Melhor exemplo: Atendimento automático via telefone, à primeira vista parece bem mais agilizado, mas na prática quer dizer que nunca tem um ser humano pensante disponível para resolver o seu problema.

Os críticos gostam de jogar toda a culpa no capitalismo, mas esse tal já está na área tem uns 400 anos, e gerou um montão de problemas, mas parecem ser problemas diferentes. Os problemas do capitalismo não tem o mesmo sentimento explicado acima. Certo que a expansão do capital especulativo é parte do problema, mas só parte. A ojeriza católica ao corpo é parte, e também a crise de obesidade o é, e o submundo hacker do leste europeu, e o iluminismo alemão, e assim por diante, ou seja, «capitalismo» é só um bode expiatório conveniente.

O que acontece é que o petróleo é literalmente o gênio da lâmpada. Um galão de gasolina é equivalente a um escravinho remando o seu barco por 400h seguidas sem parar. E galões de gasolina não reclamam das chibatadas. Falando mais sério, o petróleo representa uma fonte de energia mais poderosa do que qualquer outra coisa em toda a nossa evolução biológica. O retorno sobre investimento (em termos de energia, não de dinheiro, é importante notar) originalmente era de 1 pra 100. Cada litro de petróleo que você queimava pra furar o solo rendia 100 litros de petróleo. Ou cada 1J gerava 100J, pra ser preciso. Sendo que na história geralmente um retorno de 1 pra 3 normalmente era suficiente para gerar guerras. Então o mundo inteiro meio que se recriou à imagem do petróleo, nos últimos 100 anos. Mas aí o petróleo acabou em 2008. Não acabou acabado, mas antes era furar o chão e engatar uma mangueira, hoje pra entender o que as petroleiras fazem você precisa de um PhD em geologia e outro em Engenharia. Isso sai caro, e assim a fonte de energia perde a maior parte do seu poder. Fisicamente um litro de gasosa continua sendo mais ou menos a mesma coisa (se bem que a qualidade piorou bastante) mas politicamente esse mesmo 1 litro é muito menos porque o processo inteiro se tornou mais sujo. Com 1 pra 100, várias coisas que seriam caras demais passam a fazer sentido. Exemplo andar de carro ao invés de trem. E nos últimos 100 anos fomos fazendo cada vez mais dessas coisas. Só que com o fim do petróleo veio o fim do sentido.

A reação não é começar a fazer as coisas de forma menos artificial, diminuir a dependência petroquímica, racionalizar o uso de energia. Não. Porque o objetivo do mundo industrial nunca foi uma utopia técnico-científica. Isso sempre foi um efeito colateral. Se é que esse mundo teve em algum momento um objetivo. E se tem, é algo muito mais complicado.

Ou seja, a reação é continuar fazendo o que se fazia antes, de forma mais tosca.

Continuamos construindo castelinhos de areia. A areia ficou muito fofa, por isso os castelos não ficam sólidos, não ficam firmes, estão sempre prestes a desmoronar, e até mesmo por isso vamos fazendo castelos maiores e maiores, cada vez mais impressionantes, são mega-castelos, mas nem por isso são menos toscos.

Portanto: Precarização. Não quer dizer que vai rolar uma grande catástrofe tipo apocalipse zumbi, mas que vamos ser soterrados pelo “made in china”. E isso de certa forma é mais corrosivo para os sonhos da sociedade contemporânea: No apocalipse ainda se pode aspirar ser Fred Flitstone, fazer coisas no mundo apocalíptico, mas agora o lance é desfazer. A diferença é mais ou menos a mesma entre «bater em retirada» e «fugir com o rabo entre as pernas» — por isso talvez “retirada” seja demasiado otimismo.

O assunto é longo e cheio de detalhes que não dá pra simplificar. Nenhum romano percebeu que Roma tinha caído, e nós também não vamos perceber. Vamos continuar jogando o jogo. Mas as estratégias vão ser outras. Para-Quedas ao invés de Asas. Contenção de danos.

Sobreviver ao invés de viver. Ainda há poesia nisso, mas ela é invisível como a nova roupa do rei.

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