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Um cérebro de macaco interpreta o mundo como macaquice. Isso significa que esse cérebro é primariamente uma peça de um quebra-cabeças que é um bando de macacos, e esse cérebro serve para descobrir quem é o chefão, quem é o otário, quem é inimigo, quem administra a comida, e assim por diante. Basicamente, uma série de «Quems». Dentro da cabeça, é um monte de macacos. Primatas são animais sociais e pra esse tipo de animal nada é mais importante que a hierarquia social. O mesmo cérebro também se encarrega de orientação espacial, dos modelos de causa-e-efeito, da crítica literária e assim por diante, mas isso tudo é secundário.

Essas outras coisas secundárias podem ser impressionantes, o que levanta a questão: “¿Como?”

A ciência, a arte, a pornografia, o K-Pop, a matemática, a culinária, as religiões, os engarrafamentos, o póstransmetamodernismo, a Burocracia, o SilkRoad7 — tudo isso (e muito mais) saiu de um cérebro de humano. Mas se o ser humano é um macaco e cérebros de macaco lidam primariamente com macaquices, se o cérebro de macaco é uma ferramenta especializada na política dos bandos de macacos, como é que todas essas outras coisas vêm à tona?

A ciência é um tipo de macaquice.

Também a arte. E o K-Pop.

A ideia é que o cérebro faz modelos das coisas da mesma forma que faz modelo das pessoas.

Mais do que usar o mesmo “equipamento neuronal” para tratar pessoas e coisas, nós atribuímos às coisas propriedades e comportamentos que apenas pessoas poderiam ter. Por exemplo, achamos que nossos carros têm sentimentos, que nossos computadores têm opiniões, nós damos nomes aos animais e falamos com plantas. {Um nome técnico pra isso é Antropomorfismo.}

Cérebros passam diferentes tipos de coisas pelos mesmos filtros, é assim que eles funcionam. Por exemplo, a primeira vez que você encontra uma laranja na vida você se vira passando a laranja pela parte do cérebro que cuida das maçãs {daí vem o “pomo de ouro”}. E de uma forma ou de outra tudo é um tipo de macaquice.

Alguns chamam isso de «metáfora», e é surpreendente que isso funcione. Mas mais surpreendente ainda é que funciona até muito bem. Parece que transformando tudo em macaquice acabamos entendendo o mundo melhor do que os outros bichos (embora eu não garanto nada no caso de golfinhos nem de corvos). Metáforas são mais poderosas que dados, ou seja, é melhor interpretar as coisas do que saber as coisas. A verdade não importa tanto quanto os porquês.

Uma das (várias) explicações é que macacos fazem mímica. Eles imitam-se uns aos outros como uns palhaços. É até automático, uma resposta espontânea do corpo que serve para demostrar aceitação. É um mecanismo basal do nosso organismo.

Então qualquer modelo de macacos necessita de uma categoria de «se comporta como». A forma como um macaco age é uma variável independente, um mesmo macaco pode se comportar de muitas formas e é preciso lembrar tanto de quem ele é como de que papel ele está assumindo. {Daí vem a ortogonalidade do cérebro-macaco, edenicamente falando}.

Um papel é basicamente um comportamento que se tornou independente. Por exemplo, um chimpanzé jovem e agressivo quando não tem concorrentes assume uma postura de chefão, mas se esse jovem for tirado do bando e outro colocado no lugar, o comportamento de chefão permanece mesmo sem o próprio macaco. E daí vem uma outra explicação, o «faz-de-conta». Macacos brincam e fantasiam e atuam. Eles são capazes de ficcionalizar: Criar ficções, criar mundos que são farsas, que são insubstanciais, que de certa forma não passam de lorota, e mesmo assim eles são capazes de se preocupar com esses mundos tanto quanto se eles fossem reais (e até mais).

Então qualquer modelo de macacos necessita também de uma categoria de «se comporta como se».  {Daí vem a especulatividade do cérebro macaco, edenicamente falando}.

Seria como se eu olhasse para uma árvore mas ao invés eu visse um macaco que fica ereto e solta maçãs. É meio estranho, mas macacos fazem esse tipo de macaquice. Se tentássemos modelar uma árvore com uma zebra, não ia funcionar porque zebras tem essas esquisitices.

A fábula da ciência é o Reducionismo, uma história de que tomamos tudo como átomos e modelamos tudo a partir de “atomices”. Mas um átomo é pequeno, previsível e desprovido de comportamentos interessantes (¡por definição!). O átomo “elemento indivisível” deve ser o mais simples possível e portanto o mais diferente de um macaco possível. Mas na prática nós interpretamos tudo em termos de macaquices. Mesmo as “leis” que achamos que os átomos devem obedecer são uma forma de comportamento, especificamente “obediência ao bando”.

A matemática é um bom exemplo. Um número tem bem poucas propriedades, um número é uma coisa tão abstrata quanto possível e isso quer dizer que retiramos características específicas das coisas. Por exemplo duas maçãs são sempre uma mais bonita que a outra, mas o número dois ignora essa diferença, e supostamente todas as outras diferenças possíveis. Mas mesmo assim o número retém as propriedades básicas necessárias para ser um macaco. Um número tem opiniões e preferências. 2 prefere se tornar 4 quando elevado ao quadrado. E esse mínimo de macaquice é terrivelmente útil, justamente porque mantém a capacidade de faz-de-conta dos macacos. {Daí “The unreasonable effectiveness of Maths”.}

O problema, claro, é que ninguém tem certeza se o universo é realmente constituído de coisas semi-macacas.

Ou melhor, parece bem absurdo que o universo seja composto de coisas capazes de macaquices. Isso parece lorota inventada por um macaco bem sacaninha.

Até mesmo para criticar isso tudo eu estou recorrendo à macaquice, eu estou pegando a história da ciência e atribuindo à ela comportamentos e opiniões e papéis que não são próprios das histórias, e sim dos macacos. Isso não está tão mal, afinal eu sou um macaco e eu tenho que fazer macaquices.

Mas de uma forma ou de outra, estou dizendo que o universo vai ter que engolir minhas macaquices, e a sorte é que o universo não está nem aí. Ou, mudando de perspectiva, temos que julgar o cérebro-macaco pelos efeitos do seu trabalho (da mesma forma que faríamos julgamento de um membro do bando que estivesse fazendo algo imprevisto).

E funciona. Entender o mundo como macaquice funciona. Às vezes.

E deve não funcionar, às vezes, também. O problema é que é impossível perceber quando essa «forma de ver de macaco» não está funcionando, porque é ela mesma que estamos tentando usar para verificar. “Funcionar” é ser funcionário, coisa que só um macaco pode fazer.

Mas tudo bem, os macacos reconhecem sua imagem no espelho, o cérebro-macaco é em alguma medida meta. Até mesmo um cérebro de minhoca é meta, já que o primeiro cérebro evolui de um nervo que de alguma forma se conecta a si mesmo. O neurônio que devia estar falando pra cabeça da minhoca o que acontece na cauda da minhoca, ao invés disso, fala para outros neurônios sobre neurônios. O que devia ser bem inútil, só não é pela tal coisa do meta. Meta-neurônio, meta-linguagem, meta-cultura, meta-análise. Que é um nome estranho para a reflexividade. Que é mais ou menos como a avó da capacidade de mentir, e a bisavó da capacidade macaca de fantasiar.

Estamos acostumados a pensar em nossos cérebros como a coisa que nos torna civilizados, cívicos, cultos, aculturados, sociáveis. Mas talvez fizesse mais sentido pensar no cérebro como aquilo que nos torna fantasiosos, loroteiros, trapaceiros, trambiqueiros, manipuladores, velhacos e astutos. Que no fim das contas é o que nos torna animais estrategistas, mas a estratégia é uma tática avançada, e as táticas nunca podem ser boazinhas. Assim como os macacos. Nós somos macacos sacanas e nossas qualidades são efeitos secundários da nossa sacanagem. Nossas verdades são aspectos secundários do nosso faz-de-conta.

O lance é tornar-mo-nos macacos melhores. Mas isso é uma sacanagem.

One Trackback/Pingback

  1. By Bonobo understanding | Truth of the Lesser Men on 05 May 2016 at 5:02 pm

    […] [translation of Entendimento Bonobo] […]

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