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Não há atividade mais racional do que resolver problemas numa prova de matemática. Só que, se você já foi uma criança que ia pra escola, sabe muito bem que há consequências sentimentais muito malignas de não responder as questões certo (o que aliás quer dizer não responder como o professor prefere), e o sentimento só vai ficando pior quando você erra uma depois da outra e a recuperação vai ficando cada vez mais perto, cada vez mais, você já quase começa a imaginar um chapéu de burro na sua cabeça. E mesmo que você acerte todas as questões, ainda há um sentimento, que é um pouquinho orgulho e bastante medo de ser visto como nerd e apanhar na hora do recreio. A emoção, inclusive, tem um efeito no resultado da prova, já que em geral quem não fica tenso se dá melhor.

Não só nos ensinam matemática, mas nos ensinam que a matemática é racional. Que é a inteligência que faz matemática. Uma parte importante do condicionamento é ver o “lidar com números” como uma atividade mais sofisticada que correr ou jogar futebol. E para criar essa visão tentamos represar todos aqueles sentimentos que também são parte da prova.

Já se eu decido não atender a ligação de uma garota porque ela não foi num bar que a gente tinha combinado, parece que é o contrário, que esse é um momento “Barrados no Baile” que só envolve emoções. Tudo que importa nesse caso são sentimentos que pessoas vão ter em relação a mim. Mas também se trata de um cálculo: Maximizar o gostar dela (ou pra ser sincero como fazer ela se arrastar). Por mais psicopata que isso possa parecer, trata-se de uma previsão de causas e consequências tão estruturada quanto um experimento de física.

Portanto, no mínimo, não é tão fácil achar razão e emoção acontecendo de forma totalmente pura, sem uma misturinha uma da outra. Podem até ser dois tipos diferentes de coisas, mas elas tendem a acontecer nas nossas vidas ao mesmo tempo e muito amarradas entre si. Mas acho que ainda é mais do que isso.

Me parece que todo o ser de um ser humano tem o potencial de agir de forma criativa e inteligente, e também de forma apaixonada e empática. Um pianista aprende a deixar os dedos irem onde eles tem que ir, e todos os complicados trajetos que a mão tem que fazer são pensados pela própria mão.

Não estou dizendo que não existe o estereótipo da «Razão» abstrata e severa, indiferente às emoções. Mas é como se essa Razão-estereótipo fosse destilada da vida humana, num complicado (e às vezes cruel) processo que é ½ alquímico ½ esportivo. A matéria prima da Razão é a vida humana.

E exatamente o mesmo pode ser dito da «Emoção».

Então, por exemplo, aprendemos primeiro a reconhecer a taquicardia e o suor frio de estar indo mal na tal prova de matemática, e depois aprendemos a chamar isso de “uma emoção”, e a partir desse reconhecimento tentamos suprimir a emoção na hora de ser racional (embora quase sempre falhamos nesse último passo). Ao mesmo tempo, não taxamos de emoção a simpatia sem propósito que temos por esse ou aquele número (eu gostava do 7 quando era pequeno, mas ando meio cativado pelo 0 ultimamente).

Mas depois que você absorve essa forma de separar sentimentos de pensamentos, aparece um negócio chamado “viés de confirmação” e você passa a achar importantes os acontecimentos que confirmam a diferença e descontar os que vão contra como exceções. Ou seja, você avalia as provas da separação «Razão ≠ Emoção» de acordo com se elas confirmam ou não a teoria. Na prática, você se torna viciado em taxar as ações humanas de «Razão» ou «Emoção».

A partir dessa taxação toda (que inclusive é também prática de taxar) acaba surgindo uma dicotomia, uma estrutura interpretativa rígida, que diz que a mente é esperta, inteligente, lógica e livre de dúvidas, e que o afeto é sensível, empático, apaixonado e imune à discussão intelectual. Mas a mente real é muito mais caótica e anárquica que essa «Razão», assim como o afeto real constantemente atravessa as fronteiras claras dessa «Emoção».

Tanto razão quanto emoção são manifestações da vida humana. Por muito tempo se disse que os sentimentos vinham do coração e os pensamentos do cérebro, mas isso é bobagem. O coração é só um músculo e não sente mais do que a mão ou o braço. E também o cérebro é como um músculo, apenas parte de um corpo que só funciona em conjunto. Se fosse preciso achar uma origem biológica para «Razão» e «Emoção», acabamos chegando em propriedades emergentes dos nossos complexos sistemas neuronais.

Para tentar colocar tudo isso em termos mais reais, vou trazer para um lado mais pessoal, e íntimo. Por uma eternidade eu também achava que a minha vida interna era baseada nessa polaridade. Eu até tinha essas ideias que “eu sei lidar melhor com a razão do que com a emoção”. Em parte, mas só em parte, por causa desse mito que eu criei pra mim mesmo, acabei guardando minhas emoções em caixas bem protegidas, e isso virou uma prisão para elas. Daí tive que fazer uma longa jornada dentro de mim mesmo (tipo 7 anos de terapia) para resgatá-las. E uma das coisas que descobri nessa jornada foi que eu não me permitia pensar sobre emoções. Justo eu, que tenho como ponto forte a inteligência, me recusava a usá-la para resolver o que era o meu maior problema das emoções. E quando eu tentei desfazer essa barreira, o hábito de separar era tão forte que eu acabava artificialmente deformando as emoções até elas ficarem lógicas. Só aos poucos fui conseguindo fazer essa tradução com mais calma, mais espontaneidade.

E aí quando eu me deparei com a noção de que talvez não existisse fronteira clara, de que eu poderia entender as duas coisas como expressões diferentes da vida, «Emoção» e «Razão» foram começando a parecer cada vez mais só duas palavras, não duas coisas. E pareceu que eu só perdia por reforçar a separação.

Comecei a me perguntar se talvez a minha crença nessa diferença não a estava tornando mais importante do que ela era na realidade.

Entender tanto «Razão» quanto «Emoção» como coisas do mesmo tipo ajuda a compreender melhor o mundo. E há benefícios óbvios: Poder flexibilizar os modelos de economia de agentes racionais, contornar barreiras entre as várias escolas de psicologia, dispensar o conceito desajeitado de “pensamento mágico”, olhar melhor pra noção de consciência, e assim por diante.

A dicotomia entre «Razão» e «Emoção» distorce nossa perspectiva do mundo de formas desnecessárias. Essa dicotomia consome tempo e energia e espaço que poderíamos usar melhor.

No fundo, dividir razão e emoção diminui nossas emoções! Há muitas reclamações da Razão insensível, e certamente que uma racionalidade roubada de sensibilidade é uma coisa frágil, mas um afeto privado de inteligência é uma ferida muito mais profunda na nossa vida coletiva.

Pois não basta levar a Razão “para baixo”, para o nível da Emoção. É preciso também deixar a Emoção subir ao nível de tornar-se complexa e refinada. O nosso afeto tem que ser inteligente. Aprimorar nossos sentimentos, explorá-los & explorar com eles.

[transferido do tmbr]

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