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A excisão é a retirada do clitóris da mulher, normalmente enquanto ainda criança. Existem algumas culturas em que isso é tido como uma prática normal. A ideia, do ponto de vista da nossa cultura, parece bem selvagem, e pessoalmente ainda não consegui achar alguém tacanho o suficiente para não se horrorizar com a coisa.

A dor provocada não é muito grande, e provavelmente acontece antes mesmo da menina poder se lembrar. Quanto à pura violência física, a excisão não é muito significativa, um espancamento por exemplo é um trauma muito maior. No entanto, me parece que a excisão é o arquétipo da violência contra o feminino.

Não se trata de uma recusa ou uma opressão, de uma retirada de prazeres, é algo muito mais profundo. A excisão elimina a própria possibilidade de uma experiência. É a aniquilação da própria potencialidade de prazer do corpo feminino. É um ataque num nível que parece ser mais real que a própria realidade do corpo: Negação do próprio SER feminino.

Enquanto a excisão é vista como uma barbárie, a circuncisão masculina é vista como normal.

Anatomicamente, a pelinha do pênis (nome científico prepúcio) é a região mais densamente enervada do corpo masculino. Existem ali tipos de terminação nervosa que não existem em nenhuma outra parte do corpo. Em comparação, o restante do pênis tem a sensibilidade equivalente da pele, e a cabeça do pinto (ao contrário do que dizem as lendas) é praticamente insensível. A única coisa que se aproxima na anatomia humana é o clitóris feminino. E mesmo assim a circuncisão é tão comum que passa por fato científico que ela não altera a vida sexual do homem. Nos EUA metade da população masculina é circuncidada.

Estranhamente, embora o homem seja opressor e a mulher oprimida, a integridade corporal masculina é violada rotineiramente.

Por isso me irrita ouvir que só as mulheres sofrem com o preconceito de gênero. E quando aparece alguém pra dizer que o masculino também é vítima normalmente é na base do “homem não pode chorar”. Coitados deles, têm que prender as lágrimas! Oh!

Ninguém traz à tona o fato de que, por exemplo, a vasta maioria dos assassinatos é assassinato de homens, pela simples razão de que a vasta maioria das pessoas confinadas a vidas violentas são homens. Ou seja, na vasta maioria, os bandidos são homens. Mas aparentemente isso não pode ser uma questão de gênero.

Claro, esse é um problema muito difícil porque a sexualidade está muito próxima de nós, ela é uma parte grande demais de quem nós somos. Por isso é muito incômodo, muito trabalhoso questionar o gênero. É difícil aceitar que as coisas que nos parecem normais não são.

A diferença entre a violência física e a violência mais-que-física da excisão é exatamente essa diferença entre o que é normal e o que foge desse preconceito de normalidade. A proibição do prazer parece algo contra o qual temos que lutar, mas no fim é sempre uma proibição pouco eficaz. Mas tornar o prazer uma coisa anormal destrói esse prazer num nível maior.

O que a heteronormatividade faz não é colocar o homem sobre a mulher, mas antes tornar anormais outras formas de viver. O que o preconceito de gênero me tira, a mim homem, é o mesmo que tira às mulheres: A liberdade de SER.

[transf do tumb]

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