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A arte é importante em parte porque tenta fazer o impossível, e acho que por isso está destinada a sempre falhar mas sempre ser uma tentativa válida, mas há um desconforto nisso, há uma sensação estranha, e uma dúvida de que por mais que as pessoas vejam aquilo que estamos apresentando que no fundo no fundo aquilo só tem valor pela experiência que eu, artista, fiz de me aprofundar, de me questionar, de encarar minhas angústias e medos, então o próprio apresentar, a própria tentativa de comunicar, de pular esse abismo entre eu e você, essa tentativa pode ela mesma refazer esse abismo, porque ela cria a diferença entre a plateia e o palco. O próprio ato de apresentar já nega ao público a experiência.

Uma das tentativas de fugir desse “fazer o impossível” é colocar a plateia dentro do palco. No Cenas Breves vi um palhaço que chamava um “voluntário” e colocava o cara lá e meio que ficava zoando dele, e no final ri muito mais do cara do que do palhaço, mas puta situação desconfortável, e depois o palhaço pede mais um voluntário e fica fazendo piada que ninguém mais se dispunha, que era bem curitibano da plateia e tal. Mas: Sério? Que coisa desconfortável. E esse desconforto não vai fazer o voluntário se abrir pra experiência. Esse desconforto vai me fazer sentir mais e mais distanciado desse palco mesmo que eu esteja em cima dele, porque eu estou me defendendo da água que o maldito palhaço está jogando em mim, eu estou me defendendo e isso é o contrário da sensação da arte. Tentar pular o abismo entre o palco e a plateia (talvez porque seja uma boa metáfora para pular o abismo entre eu e o outro) é uma tentativa frequente na arte contemporânea, dessa arte que acha melhor apresentar no pátio que no teatro que assim o povo vê sem ter que ser puxado pra dentro do teatro. E é óbvio que eu também sou culpado desse, que eu também já tentei puxar pra dentro do palco. Mas talvez hoje não acho que esse desconforto valha à pena. Alguns anos atrás vi uma coreografia de uns europeus que ainda no começo da peça ficavam fazendo gestos chamando as pessoas para o palco. Só que aí um cara realmente foi pro palco e ficou meio andando meio dançando lá um tempo, e os bailarinos ficaram totalmente dentro da performance deles, não interagindo estritamente nada. E no dia seguinte o coreógrafo falou que existe uma responsabilidade de estar encima, que houve um monte de treinamento praquele momento e que se o cara se dispõe a subir ele tem também que arcar com a parte dele dessa responsabilidade, e se ele subiu ele tem que fazer aquele momento foda, ele tem que fazer aquilo especial, que os dançarinos não podem fazer isso por ele. Que é impossível pros bailarinos tornarem o cara parte do espetáculo.

E acho que esse coreógrafo tinha razão. Acho que é impossível. Mas também acho que a arte vale à pena porque tenta o impossível.

Vozes do Outono tem como palco um espaço coberto de confetes. E a plateia está sentada em cadeiras circundando esse espaço, e o confete vai até o pé dessa cadeira, e para chegar até essa cadeira você tem que pisar o confete e a sensação é a de pisar num palco, esse arriscado de pisar num palco, mas acho sutil, e durante a apresentação voa um pouco de confete nas pessoas, e depois da apresentação várias pessoas se jogaram no confete e acabou acontecendo uma certa guerra de confetes e acho que todos nós que estávamos ali naquele dia vamos passar um tempo achando confetes nas roupas, e no meio daquela bagunça me perguntei se aquelas pessoas estavam no palco ou fora dele, e onde quer que elas estavam não era com desconforto, era com uma brincadeira que, acho, está bem perto dessa abertura para a vida que é (uma das) parte da arte. E, putz, o bailarino é japonês e acho que é literalmente impossível entender o que passa na cabeça dele, mas ele tentou o impossível e, acho, chegou tão perto que foi lindo.

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