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Nossas afetividades são construídas a partir das reações das pessoas que gostamos, e embora cada pessoa tenha sua própria reação, vamos dizer que tomadas em conjunto poderíamos ver um padrão de reações. Assim embora nem todo mundo ache nojento falar de órgãos genitais é bem claro que a reação à esse tipo de fala vai estar bem mais pro lado do censurar do que pro aprovar.

Entre muitas ações que essa avaliação social tende a incentivar estão as ações que se encaixam no estereótipo do «pensador», mas esse incentivo é dado de forma perigosa, pois tende a esconder que esse «pensar» é uma ação. O próprio «escondimento» dessa corporalidade do pensar é uma ação (cujos motivos parecem claros num contexto histórico meio longo demais pra um Tumblr).

Esconder é um truque. Ao interagir com pessoas, esconder partes de quem você é te dá uma vantagem. É como jogar areia nos olhos de um boxeador. Só que esse truque contamina os outros relacionamentos: É a essência do coolfingir que tudo o que se passa ao seu redor é enfadonho, exatamente porquefaz parecer que dentro de você há um monte de coisas que já tinha o que para os outros foi interessante.

Para pensar, não é preciso colocar uma porta entre «dentro de mim» | «fora de mim». Para pensar é sim preciso trazer as sensações que seus pés e mãos sentem. É preciso ter uma fome de entender junto com uma fome de comer. É preciso do ritmo e do alcance que são profundamente poderes corporais.

O truque da negação da corporalidade foi redobrado sobre si mesmo, de novo, e de novo, e isso já vem acontecendo por milhares de anos literalmente. Isso destilou os poderes desse truque, mas também tornou seus riscos mais cortantes. Eu mesmo fui profundamente machucado por essa forma de isolar certos comportamentos e negar certas necessidades. E me parece que essa tradição de truques não é algo que eu possa desaprender. Então é preciso um anti-truque, que é também uma ação, que reconecte essa corporalidade sem perder a potência do seu escondimento.

Fazer isso é certamente mais difícil que falar isso. E tem uma parte indescritível desse truque. Mas ele começa com um ouvir: Além da vozinha na cabeça, o «pensar» tem também uma coluna meio doendo porque a cadeira onde eu estou sentada é meio macia demais, tem uma saudade de uma menina que talvez não seja tão legal quanto eu estou imaginando mas que eu gostaria de saber se, tem uma fome misturada com uma preguiça de ir arranjar comida. De certa forma, a bagunça do meu quarto é parte do meu pensar e o céu que acaba de mostrar o primeiro azul em 5 dias também. E ouvir esses outros «elementos» do pensar pode ser um primeiro passo desse truque.

Outro passo: Não abafar o pensamento. Não silenciar a vozinha. Deixar ela falar, e convidar ela a falar sobre essa coluna, sobre essa cama, sobre essa música, sobre esse sol. Chamar o pensar pra perto do corpo.

Tudo isso é preciso exercitar. Exercícios bons são as várias formas de improvisação, porque elas criam um senso de urgência/crise que te ajuda a focar no momento. Claro, é bom fazer o exercício e depois pensar sobre ele e sobre onde o seu pensamento estava naquela hora (?!). As meditações (em todos os seus sabores) também seriam se bem ensinadas atalhos para isso.

No final, claro, a descoberta é que o seu pensar já era parte de você. Mas ver isso é mais importante que saber isso. E talvez ver isso seja uma nova forma de esconder meu eu. Porque o escondimento é uma ação. E é um truque. E pensar é uma ação. Repeat.

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