Skip navigation

Assisti uma coreografia chamada “Mostra-me suas miudezas”, e pra mim foi um momento sagrado. Mariana Mello, a dançarina, é ridiculamente incrível. Depois da apresentação aconteceu uma roda de discussão, e uma das coisas faladas foi que uma música que fazia parte da obra tinha uma letra, e se aquela letra tinha algum significado, se as pessoas se deixavam levar por isso. Alguém comentou que quando a música entrou que achou um elemento pesado demais, que a música competia com o movimento, mas que depois foi indo e ela acabou se deixando levar e aquilo fez parte. E eu concordo completamente. Eu adoro a música, muito, mas foi um erro. Acontece que Mariana é tão talentosa, e a coreografia é tão poderosa, que ela acabou apagando o erro. E pode ser que, para algumas pessoas ridiculamente incríveis, não falhar, não errar, seja um risco tão grande quanto o risco de errar. Como a garota que se orgulha de ter conseguido todos os caras que já quis, e exatamente por isso nunca aprendeu a lidar com a rejeição, e exatamente por isso quando a rejeição acontece dói com uma profundidade muito maior, maior do que ela pode suportar.

E, ainda que a incrível-dade não seja distribuída igualmente, eu acho mesmo que todas as pessoas são incríveis, e acho que parte disso é aprender a ver a si mesmo, não a máscara atrás da qual a gente labuta, mas ver você mesmo com sinceridade, ver suas próprias miudezas. E parte disso é a determinação, visceral, quase selvagem, de transformar até seus erros em beleza. De tornar essa dor força.

[transfering the ex tumblr]

Não sou eu que coloco palavras na sua boca. Não sou eu que faço tudo muito difícil. Não sou eu que não presto atenção no que os outros querem. Não sou eu que falo baixo demais, nem que uso palavras grandes demais, nem que fico de picuinha com as palavras erradas. Não sou eu que insisto em fazer sentido. Não sou eu que estou tentando parecer melhor do que os outros, me fazer de inteligente, nem assumir posturas de professor. Não sou eu que quero forçar a minha maneira de ver sobre quem quer que esteja à minha volta. Não sou eu que não aceita as pequenices alheias. Não sou eu que não consigo aceitar ordens e hierarquias. Não sou eu que tenho falta de humildade. Não sou eu que tenho falta de sossego. Não sou eu que faço perguntas demais. Não sou eu que insisto demais. Não sou eu que critico demais. Não sou eu que filosofo demais. Não fui eu que falei só para machucar. Não fui eu que acusei antes de saber. Não fui eu que ofendi sem querer saber. Não fui eu que machuquei e fingi que não.

Não sou eu que me sinto desvalorizado pelas suas opções de vida e que tento te mudar apenas para me sentir melhor comigo mesmo. E não sou eu também que o faz sem perceber. Não sou eu que reajo visceralmente a um seja lá o que for que incomoda e desabo isso em enxurrada de insultos contraditórios.

Não sou eu que alego estar aberto e querer conversar, pra logo depois te jogar na cara que todas as suas mulheres são umas burras sem nenhuma qualidade que não a beleza.

Não sou eu que pergunto se você não se sente sozinho e logo depois me nego terminantemente a lhe mostrar minhas coisas.

Não sou eu que lhe acuso deslealdade sem sequer ler com atenção o que você escreve. Não sou eu que insisto em ver acusações onde há apenas uma ideia inesperada.

Não sou eu que lhe desqualifico com insinuações e faço um escândalo quando recebo uma crítica direta.

Não fui eu que não pedi desculpas.

Não sou eu que não quero dar minha cara à tapa.

É a sua palma que ainda não tem a força de acertar-me. O que me dói não é que você se recuse a isso ou aquilo, o que me dói é que você não esteja nem à altura do meu interesse. Minha mágoa não é o seu não, mas que nem sequer saberia dizer sim. Minha grande enorme mágoa é que lhe falta ainda muito feijão.

[transfering from tumblr]

No fim vários rolos acontecendo, e acho que uma análise honesta e pragmática das evidências disponíveis no caso levaria à conclusão de que meu ibope anda alto, e ainda assim sempre acabo levando pra casa um sentimento de falta, um certo desamparo, uma angústia-zinha-inha, e algumas vezes acho que é muito se achar, achar que tinha que haver mais, que eu estou querendo que caia do céu, e eu tenho um medo imenso de que também sou eu que não sou tão generoso com meu corpo, de que aquilo de não achei meu pau no lixo está na minha consciência bem fundo, tão fundo que embora eu tenha chegado à uma conclusão objetiva e baseada em dados de que não importa e eu não tenho nem moral nem intenção de negar seja quem quer que esteja querendo esse corpinho, eu não tenho pra quê negar mas acabo negando, eu tenho medo de que na hora eu faço a cara de «você não me merece» e a menina percebe mesmo que não tenha como colocar isso em palavras, pra simplificar eu não acho que meu ibope está baixo mas mesmo assim eu não tenho tido uma vida sexual ativa e é claro que penso um monte sobre isso tudo e uma explicação entre muitas outras é que pode até ter gente me querendo mas que ninguém me quer como eu sou, ou seja as pessoas querem ter alguma coisa que envolve me beijar e me tocar mas que não envolve sair da zona de conforto dela, que não envolve me entender nos meus termos, que não envolve mudar o vocabulário, e eu sei que os dois tem que fazer a mesma coisa, e eu sei que «ser eu mesmo» é uma puta máscara, mas mesmo sendo uma máscara existe alguma das máscaras que são mais confortáveis, que você se sente mais «em casa», e tem pressupostos em cada uma das máscaras e eu vejo muitos deles e tem pressupostos que me são bem difíceis de aceitar e tem algumas mentiras que eu não quero contar mesmo sabendo que tampouco tenho o poder de contar «verdades», mas eu queria tentar isso de ver a alma do outro e ter minha alma vista, e eu sei que é pedir um monte, e eu sei que uma parte do processo é coisa que eu tenho que começar, fazer sozinho uma parte, dar um primeiro passo, mas eu quero dar o passo, fazer esse caminho, mas queria sentir passos ao meu lado, e não apenas alguém olhando por uma janela para o meu mundo distante, e é ridículo que o estereótipo é que todo mundo está procurando isso, esse tal de compromisso, mas o que me parece é que o que se procura na verdade é alguém que tenha os mesmos preconceitos que você para poder continuar empurrando com a barriga a dois, me parece que os relacionamentos «normais» são só uma D.R. protelada para o futuro, e eu não quero esconder a minha alma como se fosse uma grande prova de amor você ter descoberto ela depois de dois anos de convivência, eu quero despejar isso tudo na sua cabeça no primeiro dia e que você despeje tudo na minha e que seja foda e estranho e errado mas que seja eu, que eu possa me sentir tentando ser eu mesmo, e que eu não tenha que ficar dando uma de capitão do relacionamento e navegando os medos alheios, e que seja um improviso e uma aventura e que seja também um carinho e uma curiosidade. E eu sei que eu podia ensinar isso tudo. E eu sei que estou exigindo demais. Mas tem algumas coisas que se você tem que pedir por elas perdem todo o valor.

[transfering tumblr]

Nossas afetividades são construídas a partir das reações das pessoas que gostamos, e embora cada pessoa tenha sua própria reação, vamos dizer que tomadas em conjunto poderíamos ver um padrão de reações. Assim embora nem todo mundo ache nojento falar de órgãos genitais é bem claro que a reação à esse tipo de fala vai estar bem mais pro lado do censurar do que pro aprovar.

Entre muitas ações que essa avaliação social tende a incentivar estão as ações que se encaixam no estereótipo do «pensador», mas esse incentivo é dado de forma perigosa, pois tende a esconder que esse «pensar» é uma ação. O próprio «escondimento» dessa corporalidade do pensar é uma ação (cujos motivos parecem claros num contexto histórico meio longo demais pra um Tumblr).

Esconder é um truque. Ao interagir com pessoas, esconder partes de quem você é te dá uma vantagem. É como jogar areia nos olhos de um boxeador. Só que esse truque contamina os outros relacionamentos: É a essência do coolfingir que tudo o que se passa ao seu redor é enfadonho, exatamente porquefaz parecer que dentro de você há um monte de coisas que já tinha o que para os outros foi interessante.

Para pensar, não é preciso colocar uma porta entre «dentro de mim» | «fora de mim». Para pensar é sim preciso trazer as sensações que seus pés e mãos sentem. É preciso ter uma fome de entender junto com uma fome de comer. É preciso do ritmo e do alcance que são profundamente poderes corporais.

O truque da negação da corporalidade foi redobrado sobre si mesmo, de novo, e de novo, e isso já vem acontecendo por milhares de anos literalmente. Isso destilou os poderes desse truque, mas também tornou seus riscos mais cortantes. Eu mesmo fui profundamente machucado por essa forma de isolar certos comportamentos e negar certas necessidades. E me parece que essa tradição de truques não é algo que eu possa desaprender. Então é preciso um anti-truque, que é também uma ação, que reconecte essa corporalidade sem perder a potência do seu escondimento.

Fazer isso é certamente mais difícil que falar isso. E tem uma parte indescritível desse truque. Mas ele começa com um ouvir: Além da vozinha na cabeça, o «pensar» tem também uma coluna meio doendo porque a cadeira onde eu estou sentada é meio macia demais, tem uma saudade de uma menina que talvez não seja tão legal quanto eu estou imaginando mas que eu gostaria de saber se, tem uma fome misturada com uma preguiça de ir arranjar comida. De certa forma, a bagunça do meu quarto é parte do meu pensar e o céu que acaba de mostrar o primeiro azul em 5 dias também. E ouvir esses outros «elementos» do pensar pode ser um primeiro passo desse truque.

Outro passo: Não abafar o pensamento. Não silenciar a vozinha. Deixar ela falar, e convidar ela a falar sobre essa coluna, sobre essa cama, sobre essa música, sobre esse sol. Chamar o pensar pra perto do corpo.

Tudo isso é preciso exercitar. Exercícios bons são as várias formas de improvisação, porque elas criam um senso de urgência/crise que te ajuda a focar no momento. Claro, é bom fazer o exercício e depois pensar sobre ele e sobre onde o seu pensamento estava naquela hora (?!). As meditações (em todos os seus sabores) também seriam se bem ensinadas atalhos para isso.

No final, claro, a descoberta é que o seu pensar já era parte de você. Mas ver isso é mais importante que saber isso. E talvez ver isso seja uma nova forma de esconder meu eu. Porque o escondimento é uma ação. E é um truque. E pensar é uma ação. Repeat.

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 110 other followers