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somos como quebrados
potes de vidro
estraçalhados
nossos cacos se espalhando
no espaço vazio
caleidoscópio


we are all broken
glass vessels
splintered
our shards floating
over empty space
kaleidoscope

Saul nunca se achou o fodão. Ele não era craque do futebol nem ás da matemática. Mal mal ficava na média até no que fazia melhor, mas também não era particularmente terrível em nada. E foi assim que Saul acabou tendo um par de crenças completamente únicas. Ele achava que não era especial. Ao contrário da maior parte das pessoas naquele universo de bolso, ele não ficava continuamente buscando mais e mais, afinal já era privilegiado bastante, na sua opinião, do jeito como estava. Não se achava sub-valorizado, nem sub-pago, nem sub-respeitado, nem sub-amado. Saul estava satisfeito. Mas somente isso não o tornava único. O que Saul tinha de realmente sem par era que, diferente dos outros que se faziam de subalternos, o Saul realmente acreditava que sua forma de ver as coisas poderia ajudar as pessoas. Claro que a uma ou duas vezes que ele tentou fazer uma sugestão aquilo foi visto como tentativa de se impor, e ele logo aprendeu a não compartilhar essas opiniões, mas ainda assim… Ainda assim ele sabia a solução pra todas aquelas reclamações que todas as pessoas faziam o tempo inteiro.

Tenho ouvido de algumas garotas que o que a sociedade mais exige delas é a beleza. Mas acho que é um engano isso. Não se espera delas que sejam bonitas, mas que se façam bonitas. Ou seja, a beleza não é importante, mas sim que elas se conformem ao estereótipo. Read More »

A arte é importante em parte porque tenta fazer o impossível, e acho que por isso está destinada a sempre falhar mas sempre ser uma tentativa válida, mas há um desconforto nisso, há uma sensação estranha, e uma dúvida de que por mais que as pessoas vejam aquilo que estamos apresentando que no fundo no fundo aquilo só tem valor pela experiência que eu, artista, fiz de me aprofundar, de me questionar, de encarar minhas angústias e medos, então o próprio apresentar, a própria tentativa de comunicar, de pular esse abismo entre eu e você, essa tentativa pode ela mesma refazer esse abismo, porque ela cria a diferença entre a plateia e o palco. O próprio ato de apresentar já nega ao público a experiência.

Uma das tentativas de fugir desse “fazer o impossível” é colocar a plateia dentro do palco. No Cenas Breves vi um palhaço que chamava um “voluntário” e colocava o cara lá e meio que ficava zoando dele, e no final ri muito mais do cara do que do palhaço, mas puta situação desconfortável, e depois o palhaço pede mais um voluntário e fica fazendo piada que ninguém mais se dispunha, que era bem curitibano da plateia e tal. Mas: Sério? Que coisa desconfortável. E esse desconforto não vai fazer o voluntário se abrir pra experiência. Esse desconforto vai me fazer sentir mais e mais distanciado desse palco mesmo que eu esteja em cima dele, porque eu estou me defendendo da água que o maldito palhaço está jogando em mim, eu estou me defendendo e isso é o contrário da sensação da arte. Tentar pular o abismo entre o palco e a plateia (talvez porque seja uma boa metáfora para pular o abismo entre eu e o outro) é uma tentativa frequente na arte contemporânea, dessa arte que acha melhor apresentar no pátio que no teatro que assim o povo vê sem ter que ser puxado pra dentro do teatro. E é óbvio que eu também sou culpado desse, que eu também já tentei puxar pra dentro do palco. Mas talvez hoje não acho que esse desconforto valha à pena. Alguns anos atrás vi uma coreografia de uns europeus que ainda no começo da peça ficavam fazendo gestos chamando as pessoas para o palco. Só que aí um cara realmente foi pro palco e ficou meio andando meio dançando lá um tempo, e os bailarinos ficaram totalmente dentro da performance deles, não interagindo estritamente nada. E no dia seguinte o coreógrafo falou que existe uma responsabilidade de estar encima, que houve um monte de treinamento praquele momento e que se o cara se dispõe a subir ele tem também que arcar com a parte dele dessa responsabilidade, e se ele subiu ele tem que fazer aquele momento foda, ele tem que fazer aquilo especial, que os dançarinos não podem fazer isso por ele. Que é impossível pros bailarinos tornarem o cara parte do espetáculo.

E acho que esse coreógrafo tinha razão. Acho que é impossível. Mas também acho que a arte vale à pena porque tenta o impossível.

Vozes do Outono tem como palco um espaço coberto de confetes. E a plateia está sentada em cadeiras circundando esse espaço, e o confete vai até o pé dessa cadeira, e para chegar até essa cadeira você tem que pisar o confete e a sensação é a de pisar num palco, esse arriscado de pisar num palco, mas acho sutil, e durante a apresentação voa um pouco de confete nas pessoas, e depois da apresentação várias pessoas se jogaram no confete e acabou acontecendo uma certa guerra de confetes e acho que todos nós que estávamos ali naquele dia vamos passar um tempo achando confetes nas roupas, e no meio daquela bagunça me perguntei se aquelas pessoas estavam no palco ou fora dele, e onde quer que elas estavam não era com desconforto, era com uma brincadeira que, acho, está bem perto dessa abertura para a vida que é (uma das) parte da arte. E, putz, o bailarino é japonês e acho que é literalmente impossível entender o que passa na cabeça dele, mas ele tentou o impossível e, acho, chegou tão perto que foi lindo.

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